Clemer vs. Guardiola

Guardiola é ex-jogador do Barcelona. Clemer, do Internacional. Guardiola foi técnico na base do time catalão. Clemer, do gaúcho. Guardiola chegou a técnico da equipe principal do Barça. Clemer, do Internacional. Idênticos, não? Não! Diametralmente opostos.

Em fevereiro de 2010, pouco antes de embarcar para o Equador, para uma partida contra o Deportivo Quito pela Libertadores da América (1 x 1), Fernando Carvalho esteve numa reunião na qual eu tive a oportunidade de comparecer. Na ocasião, lhe fiz uma pergunta: poderia o Inter, assim como faz com seus jogadores, um dia promover um técnico da base ao profissional? A resposta foi enfática: NÃO! E por quê? “Por culpa de vocês, torcedores”, me respondeu o Presidente. “De vocês e da mídia, que são muito corneteiros, imediatistas, e não dariam tempo para o cara se afirmar”.

A resposta enfática e em tom quase acusatório do então Vice de Futebol do meu time me deixou relativamente constrangido e insatisfeito, mas se trata da mais pura verdade. Então o que explica Clemer estar à frente do time principal, tendo vindo da base, e ainda ter muita gente defendendo sua permanência para 2014? Justamente o imediatismo.

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Ao contrário de Guardiola, criado no Barcelona como jogador desde a base e, depois, como treinador, chegando ao comando da equipe principal e encontrando ali um grupo de jogadores pronto e afirmado, de onde se preocupou mais em livrar-se de figurões do que em contratá-los, o Inter hoje promoveu Clemer a trinador como tapa buraco: fica até o fim do ano e a gente vê no que é que dá.

Na prática, afirmo com total segurança que Clemer não é o Plano A para 2014. Talvez mais correto seria dizer que não existe um plano, apenas uma ideia construída sobre tudo o que deu errado este ano, no anterior, no antecedente, e assim vai. Mas o fato é que embora o Inter também tenha um time formado por muitos jogadores vindos da base e alguns figurões em fim de carreira, não se pode nem de longe comparar o Inter de hoje com o Barcelona de 2007.

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Guardiola foi fruto de um planejamento que já é institucional há décadas. Guardiola tem luz própria e hoje mostra, no Bayern, que não é técnico apenas para o Barcelona. Mas Guardiola foi preparado para comandar o blaugraná, não foi escolhido às pressas, nem mesmo por falta de opção. Clemer, até poderia, um dia, ser técnico do Inter num modelo maios ou menos parecido com o catalão, mas absolutamente não é o que está acontecendo neste momento.

A grande questão que quero abordar com as coincidências entre Clemer e Guardiola, é que na verdade elas revelam as gigantescas diferenças entre esses dois clubes que já se encontraram algumas vezes na sua história, trazendo a nós colorados as melhores lembranças, mas que são drasticamente distintos na forma como se organizam.

O Inter é inegavelmente um celeiro de ases. Talvez nenhum outro time no Brasil revele tantos atletas quanto o colorado. É impressionante a quantidade de jogadores que se vê não só no país, mas também no exterior, que despontaram para o profissional às margens do Guaíba. No entanto, é triste ver que não temos um planejamento para que um técnico, ainda que vindo de fora, encontre no time principal uma estrutura sólida de jogadores criados na casa, para ser preenchida com algumas poucas contratações pontuais. Hoje, recorremos ao Clemer porque ele conhece os valores da base e os chama como bombeiros para apagar mais um incêndio. Vivemos a cultura do improviso, porque nos acostumamos a usar os talentos individuais como a salvação de todos os problemas. E, assim, não nos organizamos institucionalmente.

Clemer pode vir a se tornar um dos grandes treinadores do futebol brasileiro, assim como Guardiola hoje se apresenta como um dos grandes do mundo. Mas não agora, não dessa forma. Os comandos políticos dos clubes de futebol precisam, urgentemente, debater futebol. Precisam identificar as virtudes históricas de seus times vencedores, definir conceitos, sistematizar práticas. A partir daí, buscar profissionais que as implementarão desde a base. É preciso construir os alicerces, antes das edificações. Caso contrário, continuaremos reféns do mercado, do improviso, das decisões de última hora. Ou como me disse o Presidente Fernando Carvalho, impossibilitados de fazer aquilo em que acreditamos, por causa da corneta.

Daniel Chiodelli – @DanielChiodelli

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