Ídolos precisam ser exemplares

Prematura e inesperadamente ele nos deixou. Um colorado apaixonado, de apenas 36 anos. Cheio de vida pela frente. Poucos sabem, mas eventualmente aparecia em Porto Alegre e me ligava para jantarmos. Batíamos altos papos: quase sempre descontraídos, quase sempre sobre futebol. Era um cara que eu admirava muito.

Além de colorado, tinha uma paixão ainda mais antiga: o time da sua cidade natal. Uma paixão verde e branca, por um clube que o acolheu como jogador e cidadão. Um cidadão diferenciado, diga-se. Participativo. Onde pudesse ajudar, lá estava ele arregaçando as mangas, seja dentro ou fora de campo. E, via de regra, ele sempre podia. Além de tudo, era um líder. Tinha o dom da oratória.

Foi com ele que aprendi algumas das lições de vida que levo até hoje comigo. Com ele amadureci muito no que diz respeito ao próprio futebol. No que diz respeito sobretudo à rivalidade Gre-nal. Eu, gremista roxo, nunca vi nele um inimigo. Sempre um rival, nada mais. Deixei de lado aquele “ódio juvenil” que outrora tomava conta de mim e passei a respeitar mais o co-irmão. Secando como sempre, me irritando a cada trunfo, delirando a cada fracasso: mas de forma civilizada. Sabendo deixar sentimentos destrutivos de lado. Sabendo me divertir mais com o futebol. Sabendo criar mais amigos nesse meio – sejam gremistas ou colorados – e menos inimigos.

Estou falando do meu tio, Leonardo, irmão caçula do meu pai. Morto em 2007 por um tiro de bandido, num assalto a banco em Bom Jesus – pequena cidade do nordeste gaúcho. Um colorado que também amava o Juventude de Bom Jesus, clube amador da cidade. Um colorado fanático que não deixava de sofrer com seu time, não deixava de cornetear meu Grêmio, mas que, acima de tudo, lidava com o futebol de forma inteligente. Com grandeza. Sem ódio. Apenas com amor e humor. Debochando de extremismos. Tio Léo sempre agregava pessoas a ele, jamais segregava. No futebol não seria diferente.

E foi nessa convivência que aprendi o valor do respeito. Com um colorado que não tinha vergonha ou pudor de criticar seu Inter e elogiar pessoas ou coisas ligadas ao Grêmio. Aprendi que, por maiores que sejam os clubes, nada pode ser maior que nosso relacionamento com as pessoas que nos cercam. Até porque eles – os clubes – são feitos por pessoas. Não cabe a nós pisar nessa gente toda por causa de duas ou três cores. Alfinetada com humor, claro que sim! Acho até sadio. Mas destruição gratuita com ódio, não, obrigado.

E não serei hipócrita a ponto de dizer que fiquei feliz pelos amigos e parentes colorados quando o Inter conquistou os títulos de 2006. Odiei. Fiquei intragável. Até hoje quero enfiar um dedo com cuspe no ouvido do Rogério Ceni pra ele deixar de ser trouxa e aprender a segurar bolas fáceis em finais de Libertadores. Mas confesso que, logo depois da tragédia de 2007 na Serra Gaúcha, um lado meu pensou, de mansinho: que bom que o tio viu aquelas conquistas do Inter antes de nos deixar.

E viu tudo aquilo graças, talvez principalmente, ao Fernandão. Um jogador que dividiu águas no Internacional. E do qual sempre falei bem para amigos colorados. Talvez o maior ídolo do clube, pelo menos na minha visão distanciada. Mas um cara que, acima de tudo, tinha essa inteligência do meu tio para lidar com o futebol. Também sabia ser passional, gritava, se emocionava, se entregava. Mas era agregador. Respeitoso para com o rival. Exemplar em vários aspectos.

E é isso que os ídolos precisam ser: exemplares. Corretos, honestos, inteligentes e de caráter ilibado; para que sirvam de modelo aos jovens. Assim como meu tio serviu para mim.

Obrigado, Fernandão. Obrigado por alegrar o coração do Tio Léo pouco antes de sua partida – mesmo que tenha sido daquele jeito que até hoje me incomoda. E obrigado por, durante 36 anos, semear esse exemplo de correção e boa índole por onde passou. O mundo precisa de futebol, de alegria, de Copa, de bola na rede e de tudo isso que tanto nos diverte e encanta. Precisa de tudo isso que tu fizeste muito bem enquanto atuava nos gramados desse mundo. Mas talvez precise ainda mais de exemplos. De ídolos exemplares, assim como tu.

Vai com Deus. Que, todos sabem, é gremista, mas vai te receber muito bem.

 

Saudações azuis, pretas e brancas,
Lucas von.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s