O Sonho Acabou

O sonho acabou
Foram 15 dias de absoluto devaneio.
Nada parecido com o que estamos acostumados.
Ir a um jogo de futebol com os amigos, a pé, sem medo de ser assaltado ou de ser cercado e agredido por um bando de marginais “organizados” que usam uma camisa de cor diferente da minha.
Ir na direção do estádio, caminhando lado a lado, Colorados e Gremistas.
Franceses e Hondurenhos.
Australianos e Holandeses.
Coreanos e Argelinos.
Argentinos e Nigerianos.
E lá vieram os Argelinos de novo, para repetirem o mesmo trajeto, desta vez ao lado dos Alemães.
Misturados a eles, Colombianos, Chilenos, Uruguaios, Mexicanos, Israelenses, Venezuelanos, entre dezenas de outros nativos dos mais diversos e distantes lugares.
Tudo numa relax.
Numa tranquila.
Numa boa.

Cinco jogos inesquecíveis.
Três Campeãs do Mundo.
Uns “laranjas” que ainda só não são campeões do mundo por causa dos caprichos do futebol.
Se bobear, serão daqui duas semanas…
Uma desconhecida seleção da terra onde os “gandulas” escondem as bolas de futebol nas bolsas de suas barrigas.
E que nos presenteou com uma garra impressionante e com um dos gols mais lindos que já vimos por aqui.
Lotamos um estádio para ver Coreia x Argelia.
Sim, lotamos, apenas para poder prestigiar duas equipes que vieram de tão longe jogar aqui e acabamos vendo um dos melhores jogos da Copa, com seis gols.
Nos apegamos tanto aos Argelinos, que alguns dias depois eles voltaram pra tentar fazer história frente a poderosíssima Alemanha e tiveram amplo apoio de nossa (novamente) lotada arquibancada.
Aplaudimos os Hondurenhos que, mesmo com sua quase inexistente experiência em Copas, enquanto tiveram a igualdade numérica, seguraram a favoritíssima França do craque Benzema.
Vimos o estádio quase inteiro tomado por Argentinos, que transformaram nossa cidade num bairro de Buenos Aires.
40.000 dentro.
60.000 do lado de fora.
Vimos Messi comemorar seu aniversário junto com seus 100.000 irmãos e nos presentear com dois golaços.
E suar pra vencer os incansáveis Nigerianos.
Vimos Van Persie, Robben, Sneijder, Ozil, Lahm, Muller, Aguero.
Descobrimos Cahill e Musa.
Sonhamos futebol.
Bebi UM MONTE de cerveja DENTRO do estádio.
E não briguei com ninguém.
Levei PILHAS de copos pra casa, como se fossem troféus.
Guardei os ingressos, cuidadosamente, como medalhas.
Cantei musiquinha de torcida pro Fuleco.
Sim!
FU-FU-FU
LE-LE-LE
CO-CO-CO
FU-LE-CO!
Toquei tambor com Coreano.
Vibrei com os dois gols da Nigéria contra a Argentina.
Vestido COM A CAMISA DA ARGENTINA.
Ajudei Australiano a achar seu portão de entrada.
Vi Argelinos ajoelhados no concreto sagrado do Beira-Rio cumprindo seu rito religioso em pleno intervalo de jogo.
Vi a Borges de Medeiros ser pintada de laranja.
Vi a banda da Brigada tocando “Aquarela do Brasil” acompanhada da banda da torcida Holandesa.
Fiz a “ola”, incontáveis vezes.
Aliás, vi amigos meus dando início a várias “olas”.
Isso, depois de 10, 15, 20 tentativas.
Fui pro Anfiteatro depois do jogo, ver outro jogo no telão.
E conhecer mais gente que veio de muito longe só por causa de uma partida de futebol.
Tudo aqui.

Sim, foi um sonho.
Que acabou.
Acabou porque agora eu não vou mais poder ir ao estádio com meus amigos Gremistas, caminhando lado a lado.
Acabou porque eu não vou nem me sentir seguro em caminhar nas redondezas do estádio em dias de jogo.
Acabou porque os Argentinos, quando voltarem, não chegarão mais lado a lado com a gente e nem pararão pra ver a banda da brigada tocar.
No lugar dos instrumentos, a brigada vai ter que usar armas para ESCOLTÁ-LOS.
Não vou mais poder tomar a minha cerveja porque, segundo as autoridades, a cerveja vendida DENTRO do estádio gera violência.
A que é vendida DO OUTRO LADO DA RUA do estádio, não.
Não vou mais poder ver os replays dos lances no telão, porque a entidade que manda no futebol do meu país acha “ruim” pro jogo, ceder a quem PAGA pra entrar no estádio a chance de poder rever um lance bonito, feio, claro ou duvidoso.
Acabou tudo.
A Copa segue, ainda restam 10 jogos.
Mas pra nós aqui da aldeia, agora só como a gente tá “pra lá de acostumado” a ver: pela TV.
O sonho acabou.
Mas eu VIVI ele.
Se por acaso eu lhe vi no meu sonho, sorria, porque sonhamos juntos.
Se não nos vimos, eu tenho certeza que você teve o mesmo sonho que eu.
E quando muitas pessoas tem o mesmo sonho, é porque ele realmente tem algo de MUITO especial.

Veríssimo já pediu uma vez: “por favor, não me acordem”.
Era tudo o que eu queria…

@leleolele

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