JEI7x1NHO BRASILEIRO

Afinal de contas, o famoso “jeitinho brasileiro” é bom ou ruim? É mocinho ou vilão? Acho que as duas coisas. O jeitinho brasileiro é como uma caneta: nem do bem, nem do mal. Dá pra usá-la na construção de um poema ou de grosseiros xingamentos. Dá até pra furar alguém, ou apenas prender o cabelo.

O jeitinho do bem é visto diariamente em histórias de superação e criatividade. Pessoas fadadas ao fracasso que acharam um jeitinho de sobreviver, de viver. Descobriram a felicidade em contextos improváveis. Esse jeitinho brasileiro me orgulha. Pensamos “fora da caixa”.

Porém, pensamos assim em todos os sentidos. Enquanto um canadense espera o sinal de pedestres abrir, mesmo que nenhum carro passe naquela rua deserta, nossa mente brasileira é condicionada a atravessar com ele fechado mesmo. É condicionada a não “marcar bobeira”. A furar fila. Apanhamos da vida, aprendemos a nos agarrar onde der para respirar. Aqui é cada um por si. Aprendemos a tentar sobreviver, a “se dar bem” sempre. A estacionar o carro na vaga de deficientes porque “vou ali rapidinho e já volto”. E aí esse jeitinho se alastra e toma forma de corrupção, grande parte do funcionalismo público atirada nas cordas, desorganização, caos social, desrespeito, “Lei de Gerson”, etc. E aí ficamos cercados por esses jeitinhos e começamos a nos sentir trouxas quando agimos corretamente.

Pro futebol esse jeitinho pode ser ótimo. Ele está no drible inovador, no improviso do brasileiro, na nossa capacidade de surpreender. “Não dá pra passar por esses três zagueiros… Mas dou um jeito”. E a gente dá esse jeito mesmo. Mas no futebol ele também pode ter sua face negativa. E foi o que eu vi nessa Copa.

Achar UM culpado para o vexame brasileiro é de um simplismo surreal. Um placar de 7×1 num jogo desse tamanho só é possível graças a um somatório de fatores. Vamos tentar resumi-los:

Diferenciais: pra mim, as únicas peças diferentes desse grupo eram Neymar e Felipão. Os únicos capazes de criar algo diferente para buscar o Hexa. O resto é um time pra lá de normal.

Não bastasse termos poucas referências, uma delas se lesiona e cai fora. E a outra vai muito mal num jogo tão importante. Felipão não soube resolver a ausência do Neymar. Escalou MUITO mal. Sempre se destacou pela motivação, pelo extra-campo e o escambau. Mas também sempre reconheceu a superioridade dos adversários e os venceu justamente por isso. Felipão trabalhava suas limitações e se resguardava conforme necessário. Ele foi contra tudo que sempre fez. Ignorou a qualidade alemã e escalou um time faceiro e frágil. Um time que já não estava lá muito bem encaixado antes da fatídica lesão do único craque, mas que depois disso passou a jogar de forma ainda mais irresponsável e temerária.

Geração fraca: nossos diferenciais eram poucos. Um ficou de fora, outro foi um desastre. Isso tudo justificaria uma derrota ao natural, mas ainda não um fiasco. Acontece que tudo isso se deu com uma geração pobre do futebol brasileiro. Em tempos de Edmundo na reserva da Seleção, Fred não passaria nem perto da Granja Comary. Hoje é titular. Temos uma safra limitada. Isso não é culpa de Felipão, Neymar, Dilma, Aécio ou Obama. Talvez, CBF. Mas isso é outro papo.

Cabeça: some a tudo isso uma Seleção com sérias fragilidades emocionais. Aí o fiasco ganha corpo. Ninguém condenou o choro contra o Chile por achar que é feio chorar. O fato é: ali se deflagrou um enorme desequilíbrio psicológico desses jogadores. Não aguentaram a pressão de jogar uma Copa em casa. Sucumbiram. O capitão Thiago Silva sentou na bola e chorou. Não sem antes pedir pra não bater o pênalti. O CAPITÃO. O cara que devia estar enfiando o dedo na cara dos colegas e motivando o grupo. Tomar 4 gols em 6 minutos não é problema tático ou técnico. É cabeça. Tomaram o segundo e “choraram” por dentro. Enquanto choravam, os alemães passeavam no Mineirão. Isso definiu o jogo. Talvez mais que tudo.

Todo esse contexto – ainda com leves pitadas de azar – diante de um qualificado adversário, que joga com a mesma base há tempos, deu ao vexame requintes de crueldade. Foi um esculacho.

Às vezes tentamos entrar numa casa noturna, por exemplo, mas falta o documento de identidade. Esquecemos em casa. Somos barrados. Mas nem tudo está perdido: não falta simpatia, carisma, um dinheirinho extra na carteira e o dom da oratória. Junta tudo isso e, opa, consegui entrar! Palmas pro jeitinho brasileiro.

Faltou capitão. Faltou Felipão estudar melhor os adversários. Faltou também ao nosso treinador se dedicar mais a questões teóricas da bola e menos a questões prático-motivacionais. Faltou Neymar. Faltou talento. Faltou cabeça. Faltou tudo que, efetivamente, faz a diferença no futebol. Mas, OPA! Péra lá! Não faltou carisma, simpatia, pagodinho no ônibus, motivação extra com a perda do menino-craque. Não faltou a atmosfera perfeita, o apoio da torcida, o Hino à capela. Todo o resto tava lindo! Como assim não vão me deixar entrar no Maracanã? Hey, alemão, olha o Julio chorando aqui! Não vai te comover? Não vai me deixar ir pra Final? Na minha própria casa? Como assim? Chama o gerente!

E aí o Brasil jogou tudo nas costas do jeitinho. Mostrou ao mundo sua pior face. Tentou ganhar apenas na atmosfera criada. Mas esqueceram que do outro lado tinha um time. Organizado, disciplinado, que espera o sinal abrir pra atravessar a rua, que tem qualidade, entrosamento, estudo, frieza e faz o que tem que fazer. Sem jeitinho. Só o necessário pra vencer um time frágil.

E aí tomamos um gol. Ué? Pode isso, Arnaldo? E agora, o que TÓIS faz? Quero minha mãe. Vou dar um jeitinho: me jogar na área. Opa, não deu. Nem tudo dá assim. Talvez o Hexa venha em 2018: com mais estudo da comissão técnica, mais talento em campo, maior equilíbrio emocional do time e umas PITADAS de jeitinho brasileiro do bem. Ou então ficaremos muitos outros anos na fila. E essa, meu amigo… Essa não dá pra furar.

 

@lucasvon.

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  1. Maurício

    E aí, Lucas, tu poderias dar um “jeitinho do bem” e colocar um substituto no “Blog do Torcedor” do globoesporte.com. Estás devendo!

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