A Alemanha, o pôquer e a vida

Não é novidade que os novos Tetracampeões do Mundo colheram o que plantaram. É só no que se fala agora, até porque conquistaram o título mais importante do cenário futebolístico mundial. Mas a taça é só consequência. Acho que deveríamos falar dos alemães à exaustão mesmo se tivessem perdido.

De fato, fazem um trabalho a longo prazo que fortalece as bases dos clubes e valoriza a liga nacional. Um trabalho que revela talentos e lhes dá até apoio psicológico. Além de, é claro, obrigá-los a frequentar a escola para ganharem chances de jogar. Aqui no Brasil, ganhar chances de treinar em algum clube é sinônimo de “adeus, escola”.

Garimpam jóias raras em projetos financiados pela confederação alemã de futebol, mas também formam cidadãos. O Brasil apenas aposta na sorte. Torce para que surjam novos “Neymares”. Se aproveita da riqueza de biotipos que essa nação miscigenada proporciona. Colhe frutos do fato de ser um país com mais de 200 milhões de habitantes (o Uruguai, por exemplo, tem 3 milhões). E aí, soma a paixão pelo esporte com essa imensidão de gente o praticando nas ruas do Oiapoque ao Chuí e, pronto! Surge um Neymar aqui, um David Luiz acolá. Mas é só isso que fazemos: torcemos para que a safra seja boa. E eventualmente pode ser mesmo, temos boas chances por natureza. Somos Pentacampeões APESAR da CBF.

Os alemães não jogam tudo no colo da sorte. Preparam atletas, garimpam, planejam. Descobrem e aperfeiçoam a técnica dos meninos. Também acompanham a formação acadêmica desses jovens talentos. A Alemanha dificilmente assistiria inerte e com pesar a um Adriano Imperador virando ex-atleta com 30 anos. Lá ele não teria chegado a esse ponto. Hoje tem 32 e viu a Copa do sofá de casa. Viu o FRED do sofá de casa. Kaká, com a mesma idade, também não fardou, por outros motivos. Opa, será que a safra é tão ruim então? E o Pato com 24? O que esse guri fez da vida? Cadê sua carreira promissora? Robinho, 30 anos, não precisava de alguns toques? Não tinha chance de disputar vaga com o Jô? Cadê o Ganso? E a crítica aqui não é ao Felipão por não tê-los convocado: o boleiro brasileiro é problemático mesmo. Klose foi campeão do mundo aos 36 anos. O artilheiro das Copas! Um bom centroavante, mas não chega a ser um gênio da bola. Ronaldinho Gaúcho, esse sim, de talento ímpar: viu a Copa pela TV, aos 34 anos.

E a gente só lamenta. Lamenta que um se perdeu na cachaça, outro se deprimiu, outro só quer festa, outro sei lá o que. A gente lamenta que tantos outros nem conseguiram se desenvolver no esporte porque moravam longe do clube e não tinham dinheiro pro ônibus. A CBF também, só lamenta. Como se fosse incapaz de fazer algo. Segue ganhando dinheiro e torcendo para que novos talentos brotem por osmose. E que, no futuro, tenham juízo e boa cabeça.

“Ah, mas se o Messi faz um gol e fatura o título, queria ver segurar esse papinho de Modelo Alemão”. O futebol só é encantador porque convive lindamente com o imponderável. A magia do futebol está no inusitado, no pior vencendo o melhor, no lance isolado do gênio resolvendo um campeonato, na concentração e garra superando a técnica, no travessão ou erro de arbitragem colocando anos de planejamento pelo ralo. Somos apaixonados pelo futebol por tudo isso e muito mais. Mas para gestores, a paixão tem que se descolar da razão. Eles não podem apostar em vitórias oriundas dessas premissas mágicas.

Claro que o Messi podia ter driblado dois adversários e dado ao título aos argentinos. Dado o título a um time bem normal, sem grandes planejamentos ou talentos, com uma zaga questionável e a sorte de um caminho mais fácil até a Final. Acontece, é do jogo. Porém, o futebol é como o pôquer. E ambos são como a vida: faça o certo, sempre. Faça o que tem que ser feito. As probabilidades estarão a teu favor. Faça o certo várias vezes e, ainda que fracasse uma vez ou outra, é provável que em seguida saia vencedor.

O mais difícil – no futebol, no pôquer ou na vida – é justamente SABER o que é o certo. O que fazer? O pôquer, por exemplo, é quase matemático. Basta estudar. Feeling e talento também decidem o jogo, mas via de regra vence o mais preparado. O cara que sabe a probabilidade de ganhar ou perder em cada contexto. Claro que esse cara pode fazer tudo certo e perder pra um animal burro que deu “all in” com um 7 e um 2 nas mãos. O imponderável está aí pra dar graça ao futebol, ao pôquer a à vida. Mas faça o mesmo na próxima rodada. Mesmo tendo perdido na anterior. Saiba por que perdeu, saiba por que ganhou. Entenda até onde a sorte te ajudou ou prejudicou. Conheça teus méritos e limitações. Separe as coisas. Existem vitórias e derrotas diferentes. Não é só o resultado que importa. Para o torcedor pode até ser, para um gestor, jamais.

Os alemães, há tempos, estão fazendo o certo. Perderam algumas vezes, mas seguiram pelo mesmo caminho. Sempre chegando perto. Poderiam ter perdido aqui no Brasil. Poderiam ter perdido até mesmo para a Argélia nas oitavas. Mas saberiam os motivos. Saberiam até onde poderiam aperfeiçoar essas falhas e até onde teria sido obra do imponderável. O certo é que eles, se seguirem firmes com esse modelo, seguirão beliscando títulos nas próximas competições. Se vão ganhar ou não, são outros 500. A parte deles estão fazendo.

A vitória, via de regra, costuma se insinuar para o time mais preparado. O imponderável também pode decidir partidas, é verdade. Mas pros dois lados! O time preparado entra em campo com duas possibilidades: vencer porque está mais pronto ou por obra do acaso. O time menos preparado joga basicamente na expectativa do imponderável, nada mais.

E aí a brava Argentina, ciente de sua inferioridade, segurava a Alemanha na Grande Final. A tradição dos hermanos os obrigava a sair para o jogo em alguns momentos. Até chegaram com perigo em algumas vezes. O imponderável quase colocou nos pés de Higuain o gol do título. A Alemanha, como sempre com maior posse de bola, não conseguia furar o bloqueio sul-americano. Eis que, de repente, o time europeu faz uma mudança: sai Klose, 36 anos; entra Götze, 22 anos, rostinho de 16.

E aí, senhoras e senhores, fiquem com a explicação que preferirem. Se eu disser que o jovem Götze é fruto desse garimpo minucioso da confederação alemã nas categorias de base, fica evidente que o gol do título foi obra do preparo e planejamento do país. Mas se eu disser que um reserva, de apenas 22 anos, entrou no finalzinho do jogo – no lugar do maior artilheiro das Copas – e matou a bola no peito depois de um cruzamento improvável, aos 8 minutos do 2° tempo da prorrogação, pra depois chutá-la antes que caísse no chão, no canto oposto do goleiro argentino, aí, talvez, há quem diga que foi a mais linda e mágica obra do imponderável. Obra de Mário Götze, dentro do Estádio Mário Filho, o Maracanã.

Talvez seja de tudo um pouco. Talvez o imponderável também se insinue mais para os times mais preparados. Tiger Woods, maior jogador de golf da história, resumiu bem a coisa: “quanto mais eu treino, mais sorte eu tenho”.

Se o Brasil quiser continuar torcendo pela sorte, que vá atrás dela.

@lucasvon.

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