A saga do torcedor brasileiro

Fim de Copa. Lá vai o torcedor brasileiro reencontrar seu time do coração.

O jogo começa às 19h30min. O torcedor brasileiro trabalha até às 18h, do outro lado da cidade. Já levou o “manto sagrado” pro trabalho. Ligou para seu companheiro de jogos, um amigo de longa data, que respondeu: “ih, rapaiz. Hoje trabalho até às 19h, impossível chegar a tempo. Nem de helicóptero“. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo sem parceria.

O ônibus atrasa. O trânsito daquele horário é caótico. A bola vai rolar e o torcedor brasileiro está longe do estádio. Rádio? Esquece. Tem “A Voz do Brasil”. Chegando lá, filas pra entrar. A sua nova Arena moderna e Padrão FIFA não abre todos os portões – bem como bares, rampas, etc – em dias de jogos comuns. Os perrengues se assemelham – em alguns casos até superam – aos do seu antigo e ultrapassado estádio. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo pegando fila.

O primeiro tempo já está quase acabando quando, enfim, o torcedor brasileiro adentra sua segunda casa. Nervoso, pergunta a um senhor de bigode quanto tá o jogo: “não sei, acabei de chegar também“. A angústia do torcedor brasileiro aumenta. Por um lado ele adoraria saber que ainda tá zero a zero, garantindo que não perdeu lances importantes; por outro, adoraria que seu time já tivesse aberto uns dois gols de vantagem. Fica confuso. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo atrasado.

Mal se instalou em sua cadeira e acabou o primeiro tempo. Que correria pra chegar lá! Tudo que ele queria agora era uma cervejinha pra refrescar a mente. Mas não pode: é mais fácil prejudicar a maioria, composta por cidadãos de bem, a punir a minoria arruaceira exaltada pelo álcool. Cachorro-quente? Nem pensar! 10 reais naquele pedaço de pão insosso não cabe em seu orçamento. Já se esforçou financeiramente para estar ali. Vai ter que aguentar até chegar em casa. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo com fome e sede.

Enquanto isso, em outra grande cidade brasileira, outro torcedor começa a se preparar para reencontrar seu time. O duelo está marcado para às 22h. Ele sai do trabalho e vai pra casa. Come algo rapidamente, dá um beijo na patroa e se manda para o estádio. Chega pouco antes, toma cervejinha com amigos no entorno e entra. Aí o jogo acaba – pela meia-noite – e ele vai embora. Desce do trem, apanha um ônibus e, pronto, está em casa. 2h da matina. Ainda tem banho e segundo tempo da janta. E amanhã tem que estar de pé cedinho. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo não podendo dormir.

Ainda que os interesses televisivos ditem as regras de qualquer competição futebolística – incluindo a Copa do Mundo da FIFA -, no retorno do Brasileirão essas regras se mostram mais cruéis. Os patéticos horários das partidas contemplam a novela, a transmissão, a grade da emissora… Só não contemplam os interesses do torcedor que vai ao estádio. Contemplam interesses econômicos, não contemplam o bom senso. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo que o espetáculo não seja montado para ele.

Concordo que marcar jogo às 13h não é o suprassumo da razoabilidade. Sobretudo em dia da semana. Mas pelo menos, durante a Copa, as cidades-sede das partidas em questão costumavam fazer feriado. Nos dias de Brasileirão a vida segue. Não tem feriado. Não tem concessão do chefe. Não tem policiamento simpático. Não tem incentivo algum. Tudo joga contra. E a grande paixão do brasileiro é justamente seu clube. A Copa é festa, o torneio nacional é coisa séria. E autoridades – inclusive ligadas ao futebol – agem como se fosse o contrário: “a Copa é o importante e tua paixão que se dane. Te vira“. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou aos estádios como se estivesse tudo bem.

No dia que acabarem com o torcedor de estádio, o futebol vai morrer. Ele faz parte do espetáculo. E aí, morre também na TV. Morre a fortuna ligada a ele, morre tudo. Ceifam a paixão em nome do dinheiro. Esquecem que é essa paixão que faz ele girar. Deviam fomentar cada vez mais o envolvimento dos torcedores apaixonados. Fazem exatamente o oposto. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Só não sei até quando.

 

@lucasvon

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