Não faltou fumaça

É o fim da “Era Enderson” no Grêmio. O técnico que não serviu pra treinar os juniores do co-irmão finalmente foi desligado do Tricolor. Tarde. Muito tarde. Mas se foi.
 
Confesso que não achei ruim a aposta da direção. Uma alternativa considerável para um clube que se via quebrado financeiramente e assistia a um treinador relativamente barato e jovem beliscar o G4 com o Goiás. Porém, desde o começo questionávamos sua liderança. Sua capacidade de comandar e motivar seus atletas. De conquistar até mesmo o respeito do grupo. Sua aparente apatia preocupava. Mas a chance lhe foi dada. Não tínhamos muitas alternativas. Achei válido.
 
Aí o tempo passou. E é só isso que separa apostas do sucesso ou do fracasso: o tempo. Ninguém é aposta pra sempre. Depois de certo tempo de trabalho sendo avaliado, algumas conclusões já começam a ganhar corpo. E, nesse período, Enderson se mostrou fraco. Taticamente, estrategicamente, psicologicamente, tudo. Não vi um mérito pra contar história. Volta e meia clamamos por demissões, expomos nossos motivos, porém reconhecemos méritos aqui ou acolá do alvo em questão. Nesse caso não foi possível ver algo de útil. Pelo menos eu não vi.
 
A permanência inerte e improdutiva de Enderson no Grêmio começou a corroer o time como um fogo que se alastra pela mata seca. Um incêndio que comprometia as estruturas do vestiário e fazia com que a equipe, em campo, aos poucos fosse desmoronando, definhando. Os dirigentes, como se fossem os bombeiros da história, eram os únicos capazes de conter o fogo: nada fizeram. Não sei se por erro de avaliação (talvez julgando ser uma faísca inofensiva) ou por estarem ocupados em outros incêndios (talvez no da OAS), o fato é que não interviram. Assistiram ao desmoronamento do Grêmio enquanto time. Assistiram a seus atletas construindo jogadas quase que somente pelo esforço, no talento individual, na vontade, no suor. Sem jogadas, sem organização, sem esquema, nada.
 
E não faltou aviso. A então “aposta” chamada Enderson Moreira já dava seus primeiros sinais de fumaça no Gauchão. Uma campanha “ok” que, porém, culminou com o desfecho trágico e vexatório da Final. Talvez pior que os seis gols tomados nos dois Clássicos tenha sido o discurso irritante e broxante inaugurado pelo treinador gremista naquela ocasião: “isso é normal”. Discurso que, por incrível que pareça, foi reutilizado inúmeras vezes depois disso. Enderson não tinha um assessor, empresário, dirigente do clube ou até mesmo uma TIA DE BOM SENSO que pudesse instruí-lo a não repetir aquela bobagem? Tomar seis do Inter jamais será normal para o Grêmio. Sumárias e decepcionantes eliminações para times tecnicamente PIORES jamais poderá ser considerado algo normal para um clube desse tamanho e com essa história. Enfim, ao término do Clássico já tínhamos indícios de que havia fumaça naquela casamata. Direção já tinha a primeira brecha para chegar chutando a porta do vestiário com o extintor de incêndio em punhos.
 
Mas nosso “técnico normal” seguiu no comando do time. E perdeu uma das Libertadores mais acessíveis dos últimos tempos. Derrota patética. Sem alma. Sem nada de produtivo em campo. Decepcionante. A essa altura já era possível enxergar, além da fumaça densa que fugia pelas frestas, algumas labaredas beliscando as janelas. Direção tricolor assistia calmamente. De repente pensando se tratar apenas de uma lareira acesa ou de um arroz queimado na penela. E vá fumaça! E nossos bombeiros de braços cruzados.
 
Enderson ficou, mais uma vez. E começou o Brasileirão. A campanha de arrancada teve seus altos e baixos. Nenhuma partida convincente. Vitórias no “bumba-meu-boi”, derrotas preocupantes. A fumaceira já encobria a cidade. E veio a Copa, momento perfeito pra apagar o incêndio em paz e retomar a vida com maior tranquilidade. Bombeiros tricolores seguiam imóveis. Copa acabou. Três jogos de Brasileirão, três resultados diferentes. Todos com uma semelhança: futebolzinho igual ou pior ao pré-Copa. Nenhuma evolução. Elenco reforçado, boas peças em campo. Futebol sofrível apresentado. A fumaça já impossibilitava a respiração de alguns torcedores. Alguém precisava fazer algo. Aí jogaram um barril de pólvora no fogaréu: derrota pro Coxa, do Z4 e do Roth, em casa. Mangueiras ativadas. O incêndio estava em fase avançada. Enderson caiu. Demorou, mas caiu.
 
Alguns dirão: “que absurdo derrubar o técnico três jogos depois da Copa. Tiveram 40 dias pra chamar alguém e iniciar o trabalho“. Verdade. A direção, desde o início, menosprezou a nocividade dessas chamas. Tentou administrar, levar até o fim do ano quem sabe. Tentou esperar uma chuva, crer em melhores dias, sonhar com ventos dissipando a fumaceira. Nada disso veio. Precisaram agir. Planejamento e avaliação de contexto horríveis. Mas o erro não foi demitir Enderson agora. O erro foi não tê-lo feito antes. Agora, ainda que tarde, a notícia foi ótima. Ou esse incêndio podia atingir níveis trágicos.
 
@lucasvon.
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