Categoria: Lucas von

Nós, tu e os outros

Existem muitos Grêmios. O Grêmio que só nós, gremistas, conhecemos. O Grêmio que só tu conhece. O Grêmio que os outros enxergam de longe.

Para nós, o Dinho era muito melhor que o Falcão. Pra ti, bom mesmo era o Carlos Miguel, mas nunca esquecerá do dia em que encontrou o Cangaceiro dos Pampas no shopping e tirou várias fotos com ele. Pros outros, Dinho só sabia dar pau.

Pra nós, quando o time tá ganhando um bom carrinho vale mais que um belo drible. Pra ti, nada supera aquela lambreta do Fábio Baiano naquela Libertadores, bem na tua frente. Pros outros, carrinho é feio e a lambreta do Fábio Baia… Que lambreta?

Pra nós, um dos momentos mais lindos da nossa história foi quando o Grêmio PERDEU um título nacional em pleno Olímpico e o estádio inteiro cantou o Hino do clube ao término da partida. Pra ti, mais incrível ainda foi vestir o manto no dia seguinte, achando que tava ousando, e perceber que muita gente nas ruas teve a mesma ideia. Pros outros, foi apenas um dia triste que os gremistas fazem questão de esquecer.

Para nós, aquela Libertadores 2007 foi incrível. Momentos eternizados em nossas memórias. Torcida enlouquecida e em sinergia com o time. Pra ti, muitas histórias, tragos, matação de aula, churrascos e lágrimas naquela jornada. Para os outros, um vice-campeonato não vale nada.

Pra nós – que somos campeões mundiais – vencer um jogo fora de casa com 4 jogadores expulsos e 2 pênaltis contra foi a maior epopeia que o Planeta Terra já viu. Pra ti, custou uma cadeira nova e um mês de gesso na mão: depois do gol do Anderson, o soco no primeiro móvel que viu pela frente foi inevitável. Pros outros, era apenas uma Série B.

Pra nós, o Olímpico representa momentos incríveis de nossas vidas. Pra ti, pai recente que só agora começou a levar o filhote aos jogos, a Arena já começa a fazer mais sentido. Pros outros, ambos são apenas um amontoado de concreto.

Pra nós, a “imortalidade” lapidada por Lupicínio Rodrigues no Hino mais bonito do Brasil não significa ser invencível: significa não se entregar. Pra ti, essa imortalidade faz ainda mais sentido quando o Tricolor estufa as redes e te faz lembrar daquele ente querido, gremistaço, que já não está mais entre nós e que, lá do céu, canta conosco. Para os outros, é só um Hino. Só uma palavra.

Para nós, os últimos anos sem títulos foram repletos de emoções indescritíveis. Semanas Gre-nal. Semanas de Libertadores. Ansiedades, alegrias, golaços, esperanças renovadas. Fora das quatro linhas, amizades incríveis construídas graças ao Grêmio. Pra ti, viagens emocionantes seguindo o Tricolor. Inesquecíveis, ganhando ou perdendo. Para os outros, os últimos anos do clube não nos deram motivos para um pingo sequer de alegria.

Os outros que me perdoem, mas quem sabe de Grêmio somos nós, os gremistas. Não só da gloriosa história do clube, mas sobretudo do que vivemos e sentimos com o Grêmio e graças ao Grêmio. Só nós gremistas sabemos o que algumas coisas que giram em torno do Tricolor significam. Só tu, gremista, sabe como o Tricolor interfere e até mesmo molda tua vida.

Essa data não é só do Grêmio. É nossa. Dos 111 anos do clube, dos meus 29 de gremista, dos teu 63, dos 12 dela, dos 2 dele. Pois o Grêmio não é um, são vários. E é só nosso. Meu e teu. E de mais 8 milhões de pessoas que vivem de loucuras.

Parabéns a todos nós. Parabéns ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

@lucasvon.

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Carta aberta a Geral do Grêmio

– de Lucas von Silveira, sócio gremista sem posição política.

 

Tempos ruins, amigos. Pra todo mundo. Pra todo gremista. Não é hora de identificar culpados pela derrocada da Geral do Grêmio. Não é hora de vestir a carapuça do coitadismo para reclamar direitos, relembrar episódios e justificar o injustificável. É hora de olhar pra dentro e, com humildade, começar do zero. Vocês têm força pra isso. Mas não do jeito que a coisa tava indo. Desse jeito vocês irão, com força e velocidade, para o abismo.

Vamos por partes.

OS MAIS ODIADOS

Sejam sempre a torcida mais odiada. Mas PELOS ADVERSÁRIOS. Sejam odiados por silenciar o Beira-Rio cantando mais alto que eles. Sejam odiados pelas festas invejáveis que faziam noutros tempos. Por tudo de BOM que puderem esfregar na cara dos outros. Não façam questão de ser odiados por tudo e todos – mídia, adversários, GREMISTAS, atual gestão, oposição, órgãos públicos, etc – pelos piores motivos possíveis. Incomodar não é sinônimo de ser “politicamente incorreto”. É possível incomodar fazendo muita coisa legal.

Vocês sempre tiveram defensores, por tudo de bom que já protagonizaram e até mesmo pela importância que tiveram no clube em alguns anos ruins. Pessoas que frequentam estádio sabem do que falo. Eu mesmo já os defendi muito. O próprio Nestor Hein tentou. Mas vocês, ultimamente em especial, têm conseguido CANSAR a todos. Até os maiores defensores estão pulando da barca. E não é pra menos! No Gre-nal, por exemplo, muitas vozes se juntaram a vocês para defendê-los no episódio “Escolta Olímpico x Escolta Barra Shopping”. Estavam repletos de razão. Aí entram no Beira-Rio, em pleno dia dos pais, com os filhos do Fernandão presentes no estádio, e cantam aquilo. COMO SEGUIR DEFENDENDO? Essa afronta não foi aos colorados, foi ao MUNDO.

Disso vocês não precisam. Não ganham NADA com isso. A Geral precisa de alicerces de apoio, nem que seja de parte da torcida gremista. Sozinha, não vai a lugar algum.

COITADISMO

Depois de “N” cagadas protagonizadas, sempre vêm as lamúrias. Esse comportamento não combina com uma torcida tão safa e pioneira. Não combina com a GRANDE Geral do Grêmio, que surpreendeu o Brasil em seus primeiros anos de loucuras nas arquibancadas do Olímpico. Por isso ninguém engole. É um “mimimi” incompatível com tamanha astúcia.

Sei que a Gestão Koff se omitiu muito em relação a vocês. Nem vou entrar no mérito de “subsídios” e afins. Esse furo é mais embaixo. Mas ao menos eles deviam ter considerado que vocês EXISTEM. Gostando ou não, é uma faceta do clube que precisa ser administrada, como todas as outras. Eles ignoraram. Sei bem. Também não concordo com essa política. A distância entre direção e qualquer núcleo da torcida nunca será benéfica ao clube. Mas vocês, em vez de se mostrarem MAIORES que os erros dessa direção, conseguiram ser piores. Perderam totalmente a razão. “Se eles estão errados, vamos ver aqui quem é que erra mais então”. Wrong way. Não é por aí. Era o momento de serem grandes e engolirem críticos e opositores. Talvez até CATIVÁ-LOS.

O foco tem que ser em reverter situações ruins, não piorá-las. RESOLVER problemas, não utilizá-los de escudo para criar mais problemas.

MACACADA

Vou tentar ser breve nesse assunto que é bem complexo. Mas é o seguinte: o termo MACACO será extinto da Arena. Não é palpite, é uma obviedade. O mundo de 1950 não é mais o mesmo de 2014. O que se fazia e dizia em determinada época, não cabe mais nos dias de hoje.

Não sei se será extinto esse ano ainda, ou daqui a 2 anos. Talvez daqui a 40 anos. Não sei. Suspeito que, com a velocidade do mundo atual, não vá demorar. O fato é que o termo sumirá da Arena. Assim como lamentavelmente a avalanche foi extinta, o também tradicional “macaco” do co-irmão vai morrer. Mesmo “inocente” e sem cunho racista. Mesmo sem essa INTENÇÃO racista, melhor dizendo, vai morrer igual. Se eles seguirão usando mascote Escurinho, problema é DELES. Na ARENA, vai morrer.

Vai morrer porque o mundo é outro. Resta saber se vocês, INTELIGENTEMENTE, aproveitarão essa oportunidade de ouro pra pegar carona nessa onda, ou se vão nadar contra maré se desgastando mais e mais. Acredito que, se insistirem nos cantos, aos poucos serão engolidos pelo resto do estádio. Serão engolidos pelo MUNDO. Um mundo que não tolera mais algumas coisas, independente da intenção. O episódio daquele Grêmio x Santos acelerou alguns processos que, mais cedo ou mais tarde, iriam desencadear.

Sou dos maiores críticos ao futebol-coxinha. Defendo comemorações provocativas, tirar camisa, bobinas, fumaças, bandeiras, papel picado, sinalizador. Acho ridículo muito do que fazem pra tentar “melhorar” o futebol e que, no fundo, só piora. Mas chamar alguém de MACACO não entra nesse balaio. Não estou sugerindo canções amigáveis para com o Internacional. Que siga a provocação, os deboches, etc. Só que o tempo em que falar “macaco” incomodava colorados já passou. Hoje incomoda MUITO MAIS GENTE. Os colorados talvez estejam até se divertindo com tudo isso. Devem estar torcendo para que continuemos insistindo no termo. Não ganhamos NADA com essa insistência. Só temos a perder.

Se a Geral decide abolir o termo, cresce muito. Cresce no conceito de todos. Cresce em VÁRIOS ASPECTOS. Humildade não é sinônimo de fraqueza. Dar um passo pra trás não é sinal de hesitação. Tudo isso são atributos de grandes vencedores. Grandes ESTRATEGISTAS. “Ah, mas nosso macaco não é racista”. No mundo inteiro é. Eis o problema. De madrugada todo mundo passa o sinal verde com cautela, diminuindo a velocidade, olhando bem pros lados. Vai que um louco se atravessa no vermelho e nos pega em cheio? É isso: às vezes é bom tirar o pé do acelerador, mesmo com razão, principalmente quando não temos total controle sobre as consequências.

Nosso macaco nunca visou ofender a alguém. Estamos sendo injustiçados por jornalistas irresponsáveis e mal informados que generalizaram um ato isolado e blá blá blá. Porém, vamos parar de usar. Decidimos fazê-lo para evitar futuros mal-entendidos para conosco e até mesmo prejuízos ao Grêmio”. Pronto. Seria histórico. Épico. E vocês seriam protagonistas dessa BELA história. O cavalo tá passando, encilhado e mansinho.

RECONSTRUÇÃO

Fiz esse texto por nutrir certa admiração pela Geral. Por, apesar dos pesares, ainda torcer pelo bem dela. Fiz o texto por querer o bem do GRÊMIO. E um setor norte pulsante sempre será ótimo para o Tricolor. Muito já frequentei a Geral e sei da paixão daqueles caras que pulam atrás do gol. Apesar dos erros que cometem, sei que há gremismo ali. Já fui a jogos fora da cidade, do Estado, do país. A Geral tá sempre lá, com subsídio ou sem. Com chuva ou sol. Ganhando ou perdendo. Ou melhor, apenas perdendo, pois o time não ajuda há tempos.

Já vi tudo de bom que essa torcida pode trazer ao Grêmio. Não só na cancha, mas até mesmo institucionalmente. Só que hoje ela tá jogando contra, dentro e fora de campo. E aí não adianta eu, futuros Presidentes do clube, imprensa, Papa Francisco ou quem quer que seja desejar o bem da Geral se ela mesma der de ombros pra isso. Se ela mesma, dia após dia, cavar sua cova. “A Geral tem que pensar mais no Grêmio”, é o que todos reclamam. Eu diria que tem que pensar mais nela também. Não vem pensando em ninguém. Não vem pensando, ponto. Vem agindo com uma rebeldia gratuita e burra. Destrutiva. Nociva ao clube e a ela própria.

Pense, Geral. Repense. Renove-se. Ressurja. Hora da reconstrução. Nos reconquiste. Se descontrole atrás do gol. Vamos ser outra vez nós dois.

 

Saudações azuis, pretas e brancas,

@lucasvon.

A Suástica e o Macaco – Em 5 ATOS

Já tentei abordar o tema sugerindo que a torcida gremista deixasse esses termos macaquísticos de lado e fui apedrejado por alguns. Chegamos a tirar o vídeo do ar (http://globoesporte.globo.com/rs/torcedor-gremio/platb/2014/03/10/pelo-fim-da-macacada/).

Curiosamente, agora me deparo com alguns desses apedrejadores criticando os cânticos da Geral no último jogo. Eu considerei coerente. Se eles não viam problema em seguir utilizando tais termos, por que num jogo no qual as atenções do país estavam mais voltadas para a Arena teria? Ou há problema, ou não há. A lupa da opinião pública sobre aquele jogo não é capaz de criar nada, só evidencia com mais clareza o que, com lupa ou sem, já existe.

Ah, mas podiam preservar o clube pro julgamento de quarta-feira”. Sim. Nosso vídeo sugeria que preservássemos para sempre. Ou daremos explicações e criaremos mal-entendidos ad eternum.

Num primeiro momento preferi não voltar ao assunto, mesmo com tudo que aconteceu recentemente. A experiência não foi das melhores. Porém, não resisti. Só que, dessa vez, não vai ter vídeo, nem texto com pedido ou sugestão pra ninguém. Apenas criei um cenário. Joguei dados reais em meio a fictícios. Inventei uma pequena história. E, em 5 atos, acho que resumi bem o que penso sobre parte dessa polêmica. As conclusões, cada um que tire as suas.

 

ATO 1 – O macaco permitido

Há quem diga que a origem do termo “macaco”, utilizado pela torcida do Grêmio para se referir aos rivais colorados, seja racista. Teria surgido pelo fato de o Inter ter aceito negros antes do Grêmio (informação que também gera controvérsias). Porém, fiquemos com as explicações mais brandas. Sejamos otimistas e ignoremos essa (grande) possibilidade. Aceitemos que nós gremistas só chamamos os colorados de macacos porque eles historicamente nos imitam, ou porque subiam em árvores para ver os jogos durante as obras dos Eucaliptos. Aceitemos até que o termo só é utilizado porque o próprio Inter adotou um macaquinho como mascote, ainda que o fato seja extremamente recente e os cantos bem antigos. Escolha a alternativa que melhor conforte sua alma e sigamos a leitura dessa trama.

HOJE, a imensa maioria dos gremistas não utiliza o termo com alguma intenção racista (quando proferido ao rival). Gremistas negros cantam essas músicas e colorados branquinhos como a neve são considerados macacos pela torcida tricolor. Se aceitarmos alguma daquelas explicações de origem não-racista do termo, a história fica perfeita e cristalina: a intenção hoje não é pejorativa, tampouco foi na origem. “Nosso macaco está 100% limpo. Por que diabos querem que a gente pare?

ATO 2 – O Shorinji Kempo

A suástica é extremamente antiga. Segundo a Wikipédia, “é um símbolo místico encontrado em muitas culturas em tempos diferentes, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus. Alguns autores acreditam que a suástica tem um valor especial por ser encontrada em muitas culturas sem contatos umas com as outras“.

É utilizada, inclusive, no mundo das artes marciais. Se fizermos uma busca, por exemplo, por Shorinji Kempo no “google imagens”, encontraremos diversas fotos de suásticas em quimonos e afins. E, ainda que o símbolo tenha ganho maior notoriedade global com o nazismo, o Kempo é apenas uma arte marcial japonesa que possui 0% de nazismo em sua essência.

ATO 3 – O fictício duelo Gre-nal

Imaginemos que o Sorinji Kempo não seja oriundo do Japão. Vamos criar uma historinha: o Kempo surgiu no Brasil, na época dos índios. É mais tradicional que a Capoeira nas terras canarinho.

Seguindo nessa trama imaginária, vamos supor que lá por 1903 dois caras decidiram criar um clube de futebol. Reuniram-se em um boteco de Porto Alegre e traçaram as primeiras linhas desse que viria a ser o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Lá pelas tantas surgiu uma questão: quem será o Presidente do clube justamente no importantíssimo período da fundação do mesmo? Os dois sujeitos queriam essa honra para si. Discutiram. Não chegaram a um acordo. Aos berros e exaltados, foram expulsos do boteco. Seguiram o acalorado debate na rua.

Eis que, em uma praça da cidade, com os nervos à flor da pele, os dois cidadãos chegam às vias de fato. Começam um duelo cuja consequência é bem clara: o vencedor assume a Presidência do clube que está nascendo. Como todo bom brasileiro, ambos são praticantes do Kempo, e é com as técnicas dessa arte marcial que o embate se desenrola. A multidão se aglomera para ver o maior duelo da cidade.

Temos um vencedor. Ele humilha seu adversário, que sai machucado e mancando. Que tunda, amigos. Desmoralização em praça pública. O vencedor cria o Grêmio. O derrotado sequer participa do processo. Os dois cortam relações. Mas o sonho do perdedor não morre ali: seis anos depois resolve criar seu próprio clube. Nascia então o Sport Club Internacional.

Anos depois os dois clubes cresceram, viraram potências do Estado e país, alcançaram as massas e contabilizaram um sem número de torcedores. Entre as provocações naturais de um para o outro, a torcida gremista ostentava suásticas em seus jogos. Ostentava, com orgulho, o símbolo da primeira vitória histórica do clube: a tunda que seu fundador deu no fundador do co-irmão em uma luta de Sorinji Kempo. Gremistas deram aos colorados o apelido de “mancos”, referindo-se ao estado crítico em que seu fundador saiu do embate. A corneta rolava solta. Suásticas pipocavam na torcida do Grêmio em todos os Gre-nais, a fim de provocar os rivais.

ATO 4 – O Nazismo e a menina

Agora vamos colocar pitadas de verdade nessa história: de 1933 a 1945 o Nazismo de Hitler governou a Alemanha. E fez tudo o que a gente sabe que fez. Inclusive, se apropriou da suástica.

Sigamos com a ficção: na década de 50, portanto, começou a pegar mal as suásticas ostentadas na torcida do Grêmio. Algumas pessoas já faziam inevitáveis ligações negativas ao outrora inofensivo símbolo. Mas gremistas estavam de consciência limpa e seguiam utilizando.

O mundo foi mudando. Ainda que as manifestações não tivessem intenções – e origem – nazistas, alguns gremistas começaram a se constranger de usar a suástica. Porém, a grande maioria ainda defendia a “inocência histórica do pobre símbolo”. Até que, em 2014, num amistoso do Grêmio contra a Seleção de Israel, uma menina é flagrada pela TV xingando o goleiro israelense de “judeu porco imundo”. Um ato isolado. Gremistas reprovaram a atitude da menina. Mídia mundial deu espaço para o episódio. Imagem do Grêmio foi incinerada.

Alguns jornalistas irresponsáveis começaram a generalizar. Talvez mal informados sobre a história da suástica tricolor, taxaram a torcida do Grêmio inteira de nazista. Destilaram ódio e vomitaram merda em seus teclados mundo afora. Tudo por um fato isolado que, infelizmente, ocorre em vários lugares do mundo.

Torcida do Grêmio ficou machucada. Abatida. Triste com todo esse bafafá. E aí, no jogo seguinte do clube, um grupo de torcedores – colocados atrás do mesmo gol em que a menina proferiu os insultos nazistas – ergue uma suástica gigantesca sobre a arquibancada e espalha bandeirinhas de suásticas por todo o setor. Tudo isso sob o olhar atento do mundo inteiro. Tudo pra tentar provar que a “nossa suástica” não tem problema algum.

ATO 5 – Ficção vs. Realidade

Acho o exemplo que inventei acima mais COMPLEXO que a realidade na qual estamos inseridos. Ainda que a suástica seja facilmente remetida ao nazismo, tinha uma história por trás. É um símbolo antigo e repleto de outros significados. Sem falar no “empolgante Duelo Gre-nal de Kempo”. Algo que jamais seria apagado da história. Um acontecimento eternamente celebrado pela nação tricolor. Mas mesmo com todos esses relevantes argumentos, acho que os gremistas da história imaginária podiam parar de usar o símbolo. Existem outros. O do próprio clube. Se vai machucar alguém (e certamente iria, até mesmo judeus gremistas), já não faz mais sentido seguir usando. Inclusive PARA EVITAR MAL ENTENDIDOS que sujem a imagem do clube. Se sumissem essas suásticas da Arena, talvez um próximo lamentável episódio semelhante ao da menina seria visto mais como “caso isolado” e menos como “da torcida do Grêmio”.

Se a torcida der menos motivos para alimentar interpretações erradas, talvez os jornalistas possam errar menos contra nós. Possam generalizar menos. Até os jornalistas irresponsáveis – que não medem as consequências de suas palavras e não se dão conta de que podem até mesmo incentivar agressões físicas contra gremistas Brasil afora – quem sabe podem preservar mais o clube. Mas isso só se o próprio torcedor der menos margem a esses equívocos.

E nesse ponto minha ficção se assemelha muito a realidade atual. Com a diferença de que o MACACO não significa nada pra nós. Nenhuma história gloriosa ou algo que o valha. E, ao contrário da suástica de tantos significados, a palavra “macaco” direcionada a uma pessoa tem o mesmo triste sentido no mundo inteiro. É algo muito mais recente e vazio. Algo que, sinceramente, só traz prejuízos ao clube.

Seja lá por qual motivo ou contexto histórico, o fato é que a torcida do Grêmio passou a chamar os colorados de macacos para irritá-los. Acho extremamente válido que rivais se provoquem e irritem uns aos outros. Mas o mundo mudou. A sociedade mudou. Nem tudo que se fazia em 1950 é possível que seja feito hoje. Que sigamos irritando os colorados cantando mais alto que eles em pleno Beira-Rio. Dizendo que eles torceram pro Grêmio em 2009. Debochando do D’Alessandro ou fazendo SEI LÁ EU O QUÊ. Mas hoje, 2014, chamá-los de macaco só irrita alguns negros, independente do time para o qual torçam. Só irrita OS PRÓPRIOS GREMISTAS (vide Grêmio 1 x 0 Bahia). Só prejudica nossa imagem.

Aquele colorado fanático e radical que deseja o PIOR para o Grêmio deve estar ADORANDO tudo que está acontecendo. E deve estar torcendo para que sigamos insistindo nessa “provocação”.

 

Saudações azuis, pretas e brancas,

@lucasvon.

Poodle e sobrancelha

O Grêmio está fora da Copa do Brasil 2014. Isso é informação, não é palpite. “O futebol é uma caixinha de surpresas, namora com o imponderável“. Eu sei. Mas até esse imponderável se sustenta numa lógica. Quando a sorte cai no colo do despreparado, ele se assusta e a deixa cair no chão. O time do Grêmio é frouxo na essência. Os jogadores, em sua grande maioria, são bunda-moles. Vencerão partidas aleatórias do Brasileirão. Mas as decisivas, esqueçam. Vão até onde a bunda-molice permitir. E não é longe.

A boa notícia é que finalmente temos treinador. Felipão é outra vida. O time já mostra outra cara, alguma organização, até mesmo certa lógica. Falta um pouco de qualidade técnica, é verdade. Mas a que temos já seria suficiente para levantar alguma taça. Ninguém é TÃO melhor que esse Grêmio, tecnicamente falando. O problema é outro: os castelhanos chamam de HUEVOS. Temos um time de bananas. E a culpa não é dos jogadores. Talvez de quem formou esse grupo. Mas não está faltando entrega e vontade de vencer. Estão fazendo o que podem. Infelizmente são meio songa-mongas.

Teve um lance ontem que foi o retrato desse time: um jogador do Santos chutou a gol, totalmente de rosca, quase caindo no chão. Como pegou mal, a bola saiu torta e vagarosa pela linha de fundo. Rolou uma dúvida se tinha desviado ou não no zagueiro gremista. O lance era difícil. Eu mesmo, em posição privilegiada, não tenho certeza. ACHO que não desviou em ninguém. Bandeira e árbitro NITIDAMENTE hesitaram. Se entreolharam, ficaram uns 2 ou 3 segundos sem marcar nada. Sistema defensivo inteiro do Grêmio ficou paradão, esperando a decisão da arbitragem. PORRA! É Copa! Isso é lance pro Marcelo pegar rapidamente uma bola da linha de fundo e fazer menção que vai cobrar o tiro de meta. Tenho quase certeza que o confuso juíz entraria na dele. Mas não. Marcou escanteio. E ninguém reclamou, mesmo sem ter certeza. Bando de Joãozinho do Passo Certo.

Ah, mas foi injusto. Grêmio jogou bem e teve azar“. Discordo. Futebol nunca é injusto. Tivemos 20 escanteios. Cobramos TODOS de forma patética. O Santos teve uns 5 e cobrou decentemente. Em um deles nossa zaga resolveu inovar: “não vamos marcar ninguém e ver o que acontece”. Um santista adentrou a área de moonwalker e testou como bem quis. Merecemos. Justíssimo. Sem falar nos 148 gols perdidos. Não tem um desgraçado pra enfiar a pata na porra da bola e estufar a merda da rede? Isso não é azar. Time que perde gol assim merece até ser prejudicado pela arbitragem. Se aquela mão no meio do campo – no lance do segundo gol – fosse do Luan e o juizão também não tivesse visto, tenho certeza que a jogada NÃO resultaria em gol. Não adianta botar culpa no azar ou no árbitro. O problema está em nós.

Grêmio tem um time de bundinhas. Na hora que a sorte sorrir pra nós, Giuliano vai dar uma janelinha dentro da área e na sequência escorregar numa casca de banana imaginária. Vai chutar caindo, um peido fraquinho pra fora. Ou então o imponderável vai colocar o Barcos na cara do gol e ele vai dominar a bola no peito linha de fundo afora. Raramente vejo o Grêmio errando lances em que tentou fazer o certo. Difícil lembrar de “erros clássicos”, tipo: chutou bem mas foi pra fora, goleiro pegou, trave, zagueiro dividiu bem. Não. Vejo os animais realizando decisões erradas. Passando quando tem que chutar, chutando quando tem que passar. Tropeçando nas pernas quando tem que definir. Escorregando na Hora H. E por aí vai. E o pior é que eles não têm culpa. Estão se esforçando. Mas são “chama-apagada”.

É isso: o Grêmio está fora. Não perca tempo assistindo ao jogo da volta, torcedor gremista. Vá ao cinema, fique com sua família. Não perca tempo torcendo por um time que nem o imponderável salva. Um improvável G4 é o limite dos nossos sonhos em 2014. Mais um ano em branco. E que na próxima temporada a direção, seja lá qual for, observe características pessoais das novas contratações. Não apenas qualidade técnica. Precisamos de líderes de verdade. Culhões. Um time cascudo não é um time velho. Vai da personalidade dos atletas, da estrela dos mesmos. Do grupo atual, um ou outro se salvam. Que os mantenham. O resto do time é o reflexo do Werley: um ZAGUEIRO que posta fotinhos com seu poodle e faz a sobrancelha.

Feliz 2015.

 
@lucasvon.

 

Caça ou caçador

Certa feita o Grêmio perdeu um Gre-nal na década de 90. No Olímpico. Duplamente raro. Foi em 1997, um atípico 5×2. Eu tinha 12 anos.
 
Até a adolescência, perguntava tudo pro meu pai. Assíduos nos jogos do Tricolor desde meus 5 ou 6 anos de idade, protagonizávamos diálogos interessantes. Interessantes pra mim, claro. Pra ele devia ser um saco. “Pai, por que tem ambulância? Onde os quero-queros dormem? O carro-maca usa gasolina? Por que o juíz tá rindo? Não dá pra ver o jogo de graça lá do cemitério?” E por aí vai. Mas voltemos ao fatídico Gre-nal.
 
Quase chegando em casa presenciamos um pequeno debate entre dois vizinhos. Um deles, colorado, gritou algo provocativo pela janela. O outro, sem pestanejar, respondeu: “tem o dia da caça e o do caçador“. Entendi na hora. O Grêmio – Bicampeão da América, Campeão do Mundo, ATUAL Campeão Brasileiro E da Copa do Brasil, que não parava de empilhar títulos anualmente, que vencia Gauchão com os reservas e etcétera – era o caçador. O Inter, eterno coadjuvante, nossa presa. Uma presa fácil que, porém, eventualmente tinha lá seus dias. Não perguntei nada ao pai. A analogia do gremista da janela era clara, óbvia, boa. Usei no colégio, inclusive.
 
Perder Gre-nal não é problema. Isso é do jogo, acontece. Em qualquer fase do time, acontece. O problema é a jaguatirica manhosa que o Grêmio virou. Um gatinho. Dá lá suas arranhadinhas, mas via de regra precisa fugir dos verdadeiros caçadores. Hoje somos caça. Se um gremista diz depois do Clássico desse último domingo que “tem o dia da caça e o do caçador”, provavelmente um menino de 12 anos não entenderia o sentido da frase. Hoje não faria sentido. Mesmo sem tomar 5, estamos falando de outro Grêmio. Um Grêmio bem pior.
 
Enquanto vocês falarem do Mazembe, não ganharão nada“. Balela. Argumento mais estapafúrdio do mundo FIFA. Se o Grêmio ganhar 4 Libertadores nos próximos 5 anos, vou pra Goethe comemorar o Hexa imitando o Kidiaba. Rirei para sempre disso. Essa parte da corneta é sadia, sobretudo vindo da torcida. O problema é quando pensamos no Inter quando não deveríamos e/ou quando não temos envergadura moral – ou cacife – para fazê-lo. Quando nossa torcida entoa um canto infeliz e lembramos que colorados levaram cintos de segurança pro estádio ironizando a morte do Dener. Ou lembramos que 5 colorados espancaram um menino gremista de 15 anos. E aí ficamos tentando competir pra ver de quem é a cagada maior.
 
Esqueçam o Inter! ESSA grenalização é burra. Foquemos nos nossos erros, seja da torcida, da direção, do time. Se o Werley falhar de novo, a solução não é tentar achar um zagueiro do Inter pior que ele. A bronca é só e tão somente conosco.
 
Não me interessa se as reuniões do Conselho do Inter são boas ou ruins. Se tem barraco ou não. O fato é que a nossa última teve entrevero e quórum ridículo. Quero saber os porquês disso e, principalmente, entender como solucionar essas questões. Foda-se o Inter. Nosso problema é o Grêmio. Se tentarmos maquiar nossas falhas – do clube como um todo – procurando falhas maiores no Inter, não sairemos do lugar. Nos igualaremos ao co-irmão da década de 90, que fazia camisa do Ajax – o clube, não a torcida – sem nunca ter sequer pisado no Japão. O Inter era a legítima caça. Só virou o jogo quando olhou mais pra dentro e menos pra fora.
 
Direção, torcida e time do Inter fazem, dizem, cantam e protagonizam muita merda errada. Não tenho dúvidas. Não são perfeitos. Se vasculharmos, tem muita porcaria pra ser exposta aos holofotes. Mas, sinceramente, não me interessa. O foco do Grêmio tem que voltar a ser o Grêmio.
 
Precisamos parar de ser a hiena serelepe que faz festa quando foge do abate e debocha das que não tiveram a mesma sorte. Hora de reencontrarmos nossa espingarda. Mudarmos de patamar. Hora de dar uns tiros. Organizar o clube. Pensar pra frente. Limpar os erros crassos. E aí, com calma e planejamento, calibrar a mira e comprar um cachorro perdigueiro. Mas, de largada, já me basta dar uns tiros a esmo. Já me basta reencontrar um Grêmio caçador. Com postura de caçador. Um Grêmio orgulhoso, de peito inflado, confiante; porém austero e com grandeza suficiente para se permitir à auto-crítica.
 
Nem que nessa retomada alguns tiros saiam tortos. Nem que a gente ainda perca um Gre-nal ou outro. Faz parte, é do jogo. O que não faz parte é ver meu Grêmio sendo a caça. Preocupado com o que os jornalistas dirão. Preocupado com os erros do rival.
 
Olha pra dentro, Grêmio. Ri do Mazembe, pra sempre. Mas ri com tua espingarda na mão. Mascando um capim e dando tiro em todo coelhinho que pular – feito um Kidiaba – na tua frente. Ri do Mazembe, mas não usa ele de escudo pra ficar no sofá relembrando o passado. Usa como aprendizado pra quando chegar lá.
 
E só vai chegar lá se, tal qual um caçador, adentrar essa Floresta chamada América e matar todas as presas que aparecerem no teu caminho, uma a uma. E só vai conseguir tal feito se tiver agilidade, talento, boa mira e um pouco de sorte. Mas tudo isso só ajuda se tu, Grêmio, voltar a ser um caçador. Agilidade, talento, boa mira e um pouco de sorte pra uma presa, só vão ajudar a conquistar esparsas e acidentais vitórias inúteis em um Gre-nalzinho aqui e acolá.
 
 
Saudações azuis, pretas e brancas,
@lucasvon

Semana Gre-nal

Dois amigos se encontram durante a famosa “Semana Gre-nal” e dão início a um curioso bate-papo:

COLORADO: E aí, tchê! Tudo bem contigo? E esse Gre-nalzinho domingo, hein? Ai, ai, ai!

GREMISTA: Fala, meu querido. Tudo tranquilo. Pois é, nem me fala. Vai ser complicado pra nós. Mas vamo que vamo, Grêmio é Grêmio.

COLORADO: Claro, Gre-nal sempre é complicado pros dois. Quem perder pode entrar em crise. Também tô nervoso. Em compensação, se o Inter ganha, ninguém nos segura nesse Brasileiro!

GREMISTA: Sim, complicado pros dois, mas dessa vez a coisa tá muito pior pra nós. Vocês são muito favoritos. Seja o que Deus quiser.

COLORADO: Ah, cara! Para com esse papinho de favorito. Clássico não tem favorito!

GREMISTA: Como não? Inter tá bem melhor! Time mais organizado, momento melhor, joga em casa…

COLORADO: E o Grêmio? Super motivado com o Felipão. Isso não conta? Sem falar que o véio Scolari é gênio. Vai saber os atalhos pra chegar incomodando no Gre-nal.

GREMISTA: Ah, tá. E o Abelão é bem fraquinho mesmo. Só deu um Mundial pra vocês contra o Barcelona. Pobre Abel, sabe nada de futebol. Técnico por técnico vocês também tão muito bem servidos.

COLORADO: Tá, mas olha o time do Grêmio no papel! O que melhor se reforçou na parada da Copa. Elenco cheio de opções!

GREMISTA: Sim, cheio de opções e vem de duas derrotas seguidas. O Colorado tá vindo de três vitórias. Não tem comparação!

COLORADO: Cara, o Grêmio adora isso! Sempre foi copero e chato. Sempre incomodou quando desacreditado. Esse cenário é tudo que o Tricolor queria. Perfeito pra vocês!

GREMISTA: Não viaja. Esse tempo já foi. Inter dos últimos anos não deixa uma oportunidade dessas escapar. Inter reaprendeu a ser competitivo. Amassou gigantes, faturou vários canecos, tá sempre no topo. Favoritismo é todo de vocês, não tem discussão.

COLORADO: Cara, a merda do Inter perdeu pro Mazembe! Vai tomar no teu cu! Tu acha que um time que perde praquele timeco do Congo “não deixa escapar oportunidades”? Ah, faça-me o favor!

GREMISTA: Tá, e o “Grêmio copero que quando tá por baixo cresce” foi rebaixado DUAS vezes! Tava por baixo e se enterrou ainda mais! É esse o Gremião que vai pro Beira-Rio tentar dar a volta por cima? Nossa, me empolguei agora, só que não.

COLORADO: PORRA, SEU IDIOTA! O GRÊMIO É GIGANTE! CAMPEÃO DO MUNDO!

GREMISTA: O INTER TAMBÉM, SEU ANIMAL BURRO!

 

Clássico é Clássico e vice-versa” (JARDEL, Mário).

@lucasvon

Sorria, você está todo cagado

A tarde dessa terça-feira começou com muitos sorrisos no Rio Grande do Sul. De todas as partes: além de gremistas felizes com o anúncio do seu novo/velho treinador, colorados e demais “anti-Felipão” também se mostraram satisfeitos com a notícia. Sorriram, debocharam, até gargalharam. Scolari virou motivo de piada para alguns pós Copa do Mundo. A contratação foi comemorada por parte dos vermelhos.

Tentei nortear os críticos. Falei que a Seleção se perdeu em campo durante 4 minutos. A Copa se foi ali, na cabeça, na concentração. Bem ou mal, ficaram entre os 4 melhores, de 32. Na maior competição do mundo! E com um time médio. Não adiantou: os sorrisos permaneceram nas faces rubras. “Felipão é ultrapassado. O futebol mudou muito. É ex-treinador”.

Tentei lembrá-los que até ontem o cenário era: Scolari vencia a Copa das Confederações (goleando a Espanha atual campeã do mundo), organizava uma bagunçada Seleção Brasileira e era visto por todos como um dos principais treinadores do mundo. Em apenas 7 jogos – ou 4 minutos – todos esses conceitos se inverteram? Aí eles lembraram que Felipão rebaixou o Palmeiras em 2012 ( ainda que tivesse pedido demissão meses antes do descenso). Lembrei que naquele mesmo ano ele deu uma Copa do Brasil a esse fraco time do Palmeiras. “Sorte”, me responderam. Com o sorriso firme no rosto.

Insisti: há cerca de 2 anos o Inter tentou trazê-lo e a torcida colorada ficou EM CHAMAS. A segunda opção era o venerado Abel Braga (que rebaixou o Fluminense e perdeu Finais de Copa do Brasil pra Santo André e Paulista). Naquela época Scolari era gênio e colorados mobilizavam campanhas para trazê-lo. Hoje – 600 e poucos dias depois – é obsoleto. Futebol é tão dinâmico assim? “Torcedor é passional. Se agarra no pensamento mágico. Acha que, se deu certo no passado, dará certo para sempre. A Copa desmistificou isso”, me responderam. Parei de argumentar.

Ia dizer que pensamento mágico, pra mim, é Silas e Enderson. Que trazer um multicampeão é pensamento lógico, baseado em referências do passado. Pode não ganhar nada, mas a tentativa é lógica. Preferi guardar essa ponderação pra mim. Preferi deixá-los sorrindo.

O futebol, sem dúvidas, mudou muito de poucos anos pra cá. Se Felipão acompanhou ou não essas mudanças, não sei. Só sei que tem todo o resto. Por mais que ele esteja por fora das novas tendências táticas, do 4-1-2-1-2, do losango no meio, da movimentação alemã, do toque de bola colombiano, do blá blá blá do raio que o parta, tenho certeza que o “homi” ainda sabe alguma coisa do riscado. Tenho certeza que ainda põe quase todos – se não todos – técnicos brasileiros no bolso. Tomou pau na Copa, mas nessa várzea brasileira o panorama é outro.

Mesmo com 39 anos de estudos em Harvard, estágios em clubes alemães e intensivo no Barcelona, o Enderson não “limparia a chuteira” do Felipão. Não adianta só estudar, tem que ter o dom. Futebol ainda é feito por seres humanos. Feito de relacionamentos, imposição, olho no olho. Com emoções, confiança, motivações. Com dedo na cara, suor, malandragem, talento e loucura. Disso o Felipão manja. É nesse pensamento mágico que acredito. E foi esse Felipão que me ensinou a acreditar.

Os debochados seguiram sorrindo. Foram pra casa lépidos e fagueiros. Ao baterem a porta, murcharam. Fecharam o semblante. Suas esposas ou maridos devem ter perguntado: “o que houve? Que cara é essa?” “- Nada não”, deve ter sido a resposta. Mas no fundo eles sabem o que houve. Sabem que dois gigantes adormecidos se reencontraram. Dois gigantes que, juntos, ficam ainda mais fortes. Dois gigantes que vêm sendo sumariamente criticados e ridicularizados. Dois multicampeões loucos para calarem bocas.

No fundo eles sabem que o resultado dessa contratação lógica pode ser mágico. No fundo, seus corações temem pela volta das loucuras azuis, dos delírios tricolores. No fundo, lá no fundinho, eles olham praquele bigode e tremem na base. Lembram que perdiam Gauchão pros nossos reservas. No fundo, esses sorrisos não são totalmente falsos: há um certo nervosismo nessas expressões. Há um esforço nítido para transparecer leveza.

E amanhã, ao acordarem – com olheiras cavernosas no rosto, vestirão suas roupas e seus sorrisos antes de sair de casa. Desfilarão pelas ruas confiantes, triunfantes, sorridentes. Aparentando tranquilidade e desdém. E sorrindo. Vamos ver até quando.

@lucasvon.