Poodle e sobrancelha

O Grêmio está fora da Copa do Brasil 2014. Isso é informação, não é palpite. “O futebol é uma caixinha de surpresas, namora com o imponderável“. Eu sei. Mas até esse imponderável se sustenta numa lógica. Quando a sorte cai no colo do despreparado, ele se assusta e a deixa cair no chão. O time do Grêmio é frouxo na essência. Os jogadores, em sua grande maioria, são bunda-moles. Vencerão partidas aleatórias do Brasileirão. Mas as decisivas, esqueçam. Vão até onde a bunda-molice permitir. E não é longe.

A boa notícia é que finalmente temos treinador. Felipão é outra vida. O time já mostra outra cara, alguma organização, até mesmo certa lógica. Falta um pouco de qualidade técnica, é verdade. Mas a que temos já seria suficiente para levantar alguma taça. Ninguém é TÃO melhor que esse Grêmio, tecnicamente falando. O problema é outro: os castelhanos chamam de HUEVOS. Temos um time de bananas. E a culpa não é dos jogadores. Talvez de quem formou esse grupo. Mas não está faltando entrega e vontade de vencer. Estão fazendo o que podem. Infelizmente são meio songa-mongas.

Teve um lance ontem que foi o retrato desse time: um jogador do Santos chutou a gol, totalmente de rosca, quase caindo no chão. Como pegou mal, a bola saiu torta e vagarosa pela linha de fundo. Rolou uma dúvida se tinha desviado ou não no zagueiro gremista. O lance era difícil. Eu mesmo, em posição privilegiada, não tenho certeza. ACHO que não desviou em ninguém. Bandeira e árbitro NITIDAMENTE hesitaram. Se entreolharam, ficaram uns 2 ou 3 segundos sem marcar nada. Sistema defensivo inteiro do Grêmio ficou paradão, esperando a decisão da arbitragem. PORRA! É Copa! Isso é lance pro Marcelo pegar rapidamente uma bola da linha de fundo e fazer menção que vai cobrar o tiro de meta. Tenho quase certeza que o confuso juíz entraria na dele. Mas não. Marcou escanteio. E ninguém reclamou, mesmo sem ter certeza. Bando de Joãozinho do Passo Certo.

Ah, mas foi injusto. Grêmio jogou bem e teve azar“. Discordo. Futebol nunca é injusto. Tivemos 20 escanteios. Cobramos TODOS de forma patética. O Santos teve uns 5 e cobrou decentemente. Em um deles nossa zaga resolveu inovar: “não vamos marcar ninguém e ver o que acontece”. Um santista adentrou a área de moonwalker e testou como bem quis. Merecemos. Justíssimo. Sem falar nos 148 gols perdidos. Não tem um desgraçado pra enfiar a pata na porra da bola e estufar a merda da rede? Isso não é azar. Time que perde gol assim merece até ser prejudicado pela arbitragem. Se aquela mão no meio do campo – no lance do segundo gol – fosse do Luan e o juizão também não tivesse visto, tenho certeza que a jogada NÃO resultaria em gol. Não adianta botar culpa no azar ou no árbitro. O problema está em nós.

Grêmio tem um time de bundinhas. Na hora que a sorte sorrir pra nós, Giuliano vai dar uma janelinha dentro da área e na sequência escorregar numa casca de banana imaginária. Vai chutar caindo, um peido fraquinho pra fora. Ou então o imponderável vai colocar o Barcos na cara do gol e ele vai dominar a bola no peito linha de fundo afora. Raramente vejo o Grêmio errando lances em que tentou fazer o certo. Difícil lembrar de “erros clássicos”, tipo: chutou bem mas foi pra fora, goleiro pegou, trave, zagueiro dividiu bem. Não. Vejo os animais realizando decisões erradas. Passando quando tem que chutar, chutando quando tem que passar. Tropeçando nas pernas quando tem que definir. Escorregando na Hora H. E por aí vai. E o pior é que eles não têm culpa. Estão se esforçando. Mas são “chama-apagada”.

É isso: o Grêmio está fora. Não perca tempo assistindo ao jogo da volta, torcedor gremista. Vá ao cinema, fique com sua família. Não perca tempo torcendo por um time que nem o imponderável salva. Um improvável G4 é o limite dos nossos sonhos em 2014. Mais um ano em branco. E que na próxima temporada a direção, seja lá qual for, observe características pessoais das novas contratações. Não apenas qualidade técnica. Precisamos de líderes de verdade. Culhões. Um time cascudo não é um time velho. Vai da personalidade dos atletas, da estrela dos mesmos. Do grupo atual, um ou outro se salvam. Que os mantenham. O resto do time é o reflexo do Werley: um ZAGUEIRO que posta fotinhos com seu poodle e faz a sobrancelha.

Feliz 2015.

 
@lucasvon.

 

Caça ou caçador

Certa feita o Grêmio perdeu um Gre-nal na década de 90. No Olímpico. Duplamente raro. Foi em 1997, um atípico 5×2. Eu tinha 12 anos.
 
Até a adolescência, perguntava tudo pro meu pai. Assíduos nos jogos do Tricolor desde meus 5 ou 6 anos de idade, protagonizávamos diálogos interessantes. Interessantes pra mim, claro. Pra ele devia ser um saco. “Pai, por que tem ambulância? Onde os quero-queros dormem? O carro-maca usa gasolina? Por que o juíz tá rindo? Não dá pra ver o jogo de graça lá do cemitério?” E por aí vai. Mas voltemos ao fatídico Gre-nal.
 
Quase chegando em casa presenciamos um pequeno debate entre dois vizinhos. Um deles, colorado, gritou algo provocativo pela janela. O outro, sem pestanejar, respondeu: “tem o dia da caça e o do caçador“. Entendi na hora. O Grêmio – Bicampeão da América, Campeão do Mundo, ATUAL Campeão Brasileiro E da Copa do Brasil, que não parava de empilhar títulos anualmente, que vencia Gauchão com os reservas e etcétera – era o caçador. O Inter, eterno coadjuvante, nossa presa. Uma presa fácil que, porém, eventualmente tinha lá seus dias. Não perguntei nada ao pai. A analogia do gremista da janela era clara, óbvia, boa. Usei no colégio, inclusive.
 
Perder Gre-nal não é problema. Isso é do jogo, acontece. Em qualquer fase do time, acontece. O problema é a jaguatirica manhosa que o Grêmio virou. Um gatinho. Dá lá suas arranhadinhas, mas via de regra precisa fugir dos verdadeiros caçadores. Hoje somos caça. Se um gremista diz depois do Clássico desse último domingo que “tem o dia da caça e o do caçador”, provavelmente um menino de 12 anos não entenderia o sentido da frase. Hoje não faria sentido. Mesmo sem tomar 5, estamos falando de outro Grêmio. Um Grêmio bem pior.
 
Enquanto vocês falarem do Mazembe, não ganharão nada“. Balela. Argumento mais estapafúrdio do mundo FIFA. Se o Grêmio ganhar 4 Libertadores nos próximos 5 anos, vou pra Goethe comemorar o Hexa imitando o Kidiaba. Rirei para sempre disso. Essa parte da corneta é sadia, sobretudo vindo da torcida. O problema é quando pensamos no Inter quando não deveríamos e/ou quando não temos envergadura moral – ou cacife – para fazê-lo. Quando nossa torcida entoa um canto infeliz e lembramos que colorados levaram cintos de segurança pro estádio ironizando a morte do Dener. Ou lembramos que 5 colorados espancaram um menino gremista de 15 anos. E aí ficamos tentando competir pra ver de quem é a cagada maior.
 
Esqueçam o Inter! ESSA grenalização é burra. Foquemos nos nossos erros, seja da torcida, da direção, do time. Se o Werley falhar de novo, a solução não é tentar achar um zagueiro do Inter pior que ele. A bronca é só e tão somente conosco.
 
Não me interessa se as reuniões do Conselho do Inter são boas ou ruins. Se tem barraco ou não. O fato é que a nossa última teve entrevero e quórum ridículo. Quero saber os porquês disso e, principalmente, entender como solucionar essas questões. Foda-se o Inter. Nosso problema é o Grêmio. Se tentarmos maquiar nossas falhas – do clube como um todo – procurando falhas maiores no Inter, não sairemos do lugar. Nos igualaremos ao co-irmão da década de 90, que fazia camisa do Ajax – o clube, não a torcida – sem nunca ter sequer pisado no Japão. O Inter era a legítima caça. Só virou o jogo quando olhou mais pra dentro e menos pra fora.
 
Direção, torcida e time do Inter fazem, dizem, cantam e protagonizam muita merda errada. Não tenho dúvidas. Não são perfeitos. Se vasculharmos, tem muita porcaria pra ser exposta aos holofotes. Mas, sinceramente, não me interessa. O foco do Grêmio tem que voltar a ser o Grêmio.
 
Precisamos parar de ser a hiena serelepe que faz festa quando foge do abate e debocha das que não tiveram a mesma sorte. Hora de reencontrarmos nossa espingarda. Mudarmos de patamar. Hora de dar uns tiros. Organizar o clube. Pensar pra frente. Limpar os erros crassos. E aí, com calma e planejamento, calibrar a mira e comprar um cachorro perdigueiro. Mas, de largada, já me basta dar uns tiros a esmo. Já me basta reencontrar um Grêmio caçador. Com postura de caçador. Um Grêmio orgulhoso, de peito inflado, confiante; porém austero e com grandeza suficiente para se permitir à auto-crítica.
 
Nem que nessa retomada alguns tiros saiam tortos. Nem que a gente ainda perca um Gre-nal ou outro. Faz parte, é do jogo. O que não faz parte é ver meu Grêmio sendo a caça. Preocupado com o que os jornalistas dirão. Preocupado com os erros do rival.
 
Olha pra dentro, Grêmio. Ri do Mazembe, pra sempre. Mas ri com tua espingarda na mão. Mascando um capim e dando tiro em todo coelhinho que pular – feito um Kidiaba – na tua frente. Ri do Mazembe, mas não usa ele de escudo pra ficar no sofá relembrando o passado. Usa como aprendizado pra quando chegar lá.
 
E só vai chegar lá se, tal qual um caçador, adentrar essa Floresta chamada América e matar todas as presas que aparecerem no teu caminho, uma a uma. E só vai conseguir tal feito se tiver agilidade, talento, boa mira e um pouco de sorte. Mas tudo isso só ajuda se tu, Grêmio, voltar a ser um caçador. Agilidade, talento, boa mira e um pouco de sorte pra uma presa, só vão ajudar a conquistar esparsas e acidentais vitórias inúteis em um Gre-nalzinho aqui e acolá.
 
 
Saudações azuis, pretas e brancas,
@lucasvon

Semana Gre-nal

Dois amigos se encontram durante a famosa “Semana Gre-nal” e dão início a um curioso bate-papo:

COLORADO: E aí, tchê! Tudo bem contigo? E esse Gre-nalzinho domingo, hein? Ai, ai, ai!

GREMISTA: Fala, meu querido. Tudo tranquilo. Pois é, nem me fala. Vai ser complicado pra nós. Mas vamo que vamo, Grêmio é Grêmio.

COLORADO: Claro, Gre-nal sempre é complicado pros dois. Quem perder pode entrar em crise. Também tô nervoso. Em compensação, se o Inter ganha, ninguém nos segura nesse Brasileiro!

GREMISTA: Sim, complicado pros dois, mas dessa vez a coisa tá muito pior pra nós. Vocês são muito favoritos. Seja o que Deus quiser.

COLORADO: Ah, cara! Para com esse papinho de favorito. Clássico não tem favorito!

GREMISTA: Como não? Inter tá bem melhor! Time mais organizado, momento melhor, joga em casa…

COLORADO: E o Grêmio? Super motivado com o Felipão. Isso não conta? Sem falar que o véio Scolari é gênio. Vai saber os atalhos pra chegar incomodando no Gre-nal.

GREMISTA: Ah, tá. E o Abelão é bem fraquinho mesmo. Só deu um Mundial pra vocês contra o Barcelona. Pobre Abel, sabe nada de futebol. Técnico por técnico vocês também tão muito bem servidos.

COLORADO: Tá, mas olha o time do Grêmio no papel! O que melhor se reforçou na parada da Copa. Elenco cheio de opções!

GREMISTA: Sim, cheio de opções e vem de duas derrotas seguidas. O Colorado tá vindo de três vitórias. Não tem comparação!

COLORADO: Cara, o Grêmio adora isso! Sempre foi copero e chato. Sempre incomodou quando desacreditado. Esse cenário é tudo que o Tricolor queria. Perfeito pra vocês!

GREMISTA: Não viaja. Esse tempo já foi. Inter dos últimos anos não deixa uma oportunidade dessas escapar. Inter reaprendeu a ser competitivo. Amassou gigantes, faturou vários canecos, tá sempre no topo. Favoritismo é todo de vocês, não tem discussão.

COLORADO: Cara, a merda do Inter perdeu pro Mazembe! Vai tomar no teu cu! Tu acha que um time que perde praquele timeco do Congo “não deixa escapar oportunidades”? Ah, faça-me o favor!

GREMISTA: Tá, e o “Grêmio copero que quando tá por baixo cresce” foi rebaixado DUAS vezes! Tava por baixo e se enterrou ainda mais! É esse o Gremião que vai pro Beira-Rio tentar dar a volta por cima? Nossa, me empolguei agora, só que não.

COLORADO: PORRA, SEU IDIOTA! O GRÊMIO É GIGANTE! CAMPEÃO DO MUNDO!

GREMISTA: O INTER TAMBÉM, SEU ANIMAL BURRO!

 

Clássico é Clássico e vice-versa” (JARDEL, Mário).

@lucasvon

Sorria, você está todo cagado

A tarde dessa terça-feira começou com muitos sorrisos no Rio Grande do Sul. De todas as partes: além de gremistas felizes com o anúncio do seu novo/velho treinador, colorados e demais “anti-Felipão” também se mostraram satisfeitos com a notícia. Sorriram, debocharam, até gargalharam. Scolari virou motivo de piada para alguns pós Copa do Mundo. A contratação foi comemorada por parte dos vermelhos.

Tentei nortear os críticos. Falei que a Seleção se perdeu em campo durante 4 minutos. A Copa se foi ali, na cabeça, na concentração. Bem ou mal, ficaram entre os 4 melhores, de 32. Na maior competição do mundo! E com um time médio. Não adiantou: os sorrisos permaneceram nas faces rubras. “Felipão é ultrapassado. O futebol mudou muito. É ex-treinador”.

Tentei lembrá-los que até ontem o cenário era: Scolari vencia a Copa das Confederações (goleando a Espanha atual campeã do mundo), organizava uma bagunçada Seleção Brasileira e era visto por todos como um dos principais treinadores do mundo. Em apenas 7 jogos – ou 4 minutos – todos esses conceitos se inverteram? Aí eles lembraram que Felipão rebaixou o Palmeiras em 2012 ( ainda que tivesse pedido demissão meses antes do descenso). Lembrei que naquele mesmo ano ele deu uma Copa do Brasil a esse fraco time do Palmeiras. “Sorte”, me responderam. Com o sorriso firme no rosto.

Insisti: há cerca de 2 anos o Inter tentou trazê-lo e a torcida colorada ficou EM CHAMAS. A segunda opção era o venerado Abel Braga (que rebaixou o Fluminense e perdeu Finais de Copa do Brasil pra Santo André e Paulista). Naquela época Scolari era gênio e colorados mobilizavam campanhas para trazê-lo. Hoje – 600 e poucos dias depois – é obsoleto. Futebol é tão dinâmico assim? “Torcedor é passional. Se agarra no pensamento mágico. Acha que, se deu certo no passado, dará certo para sempre. A Copa desmistificou isso”, me responderam. Parei de argumentar.

Ia dizer que pensamento mágico, pra mim, é Silas e Enderson. Que trazer um multicampeão é pensamento lógico, baseado em referências do passado. Pode não ganhar nada, mas a tentativa é lógica. Preferi guardar essa ponderação pra mim. Preferi deixá-los sorrindo.

O futebol, sem dúvidas, mudou muito de poucos anos pra cá. Se Felipão acompanhou ou não essas mudanças, não sei. Só sei que tem todo o resto. Por mais que ele esteja por fora das novas tendências táticas, do 4-1-2-1-2, do losango no meio, da movimentação alemã, do toque de bola colombiano, do blá blá blá do raio que o parta, tenho certeza que o “homi” ainda sabe alguma coisa do riscado. Tenho certeza que ainda põe quase todos – se não todos – técnicos brasileiros no bolso. Tomou pau na Copa, mas nessa várzea brasileira o panorama é outro.

Mesmo com 39 anos de estudos em Harvard, estágios em clubes alemães e intensivo no Barcelona, o Enderson não “limparia a chuteira” do Felipão. Não adianta só estudar, tem que ter o dom. Futebol ainda é feito por seres humanos. Feito de relacionamentos, imposição, olho no olho. Com emoções, confiança, motivações. Com dedo na cara, suor, malandragem, talento e loucura. Disso o Felipão manja. É nesse pensamento mágico que acredito. E foi esse Felipão que me ensinou a acreditar.

Os debochados seguiram sorrindo. Foram pra casa lépidos e fagueiros. Ao baterem a porta, murcharam. Fecharam o semblante. Suas esposas ou maridos devem ter perguntado: “o que houve? Que cara é essa?” “- Nada não”, deve ter sido a resposta. Mas no fundo eles sabem o que houve. Sabem que dois gigantes adormecidos se reencontraram. Dois gigantes que, juntos, ficam ainda mais fortes. Dois gigantes que vêm sendo sumariamente criticados e ridicularizados. Dois multicampeões loucos para calarem bocas.

No fundo eles sabem que o resultado dessa contratação lógica pode ser mágico. No fundo, seus corações temem pela volta das loucuras azuis, dos delírios tricolores. No fundo, lá no fundinho, eles olham praquele bigode e tremem na base. Lembram que perdiam Gauchão pros nossos reservas. No fundo, esses sorrisos não são totalmente falsos: há um certo nervosismo nessas expressões. Há um esforço nítido para transparecer leveza.

E amanhã, ao acordarem – com olheiras cavernosas no rosto, vestirão suas roupas e seus sorrisos antes de sair de casa. Desfilarão pelas ruas confiantes, triunfantes, sorridentes. Aparentando tranquilidade e desdém. E sorrindo. Vamos ver até quando.

@lucasvon.

A volta de Felipão

Felipão não é bobo.
Após protagonizar o maior fiasco da história do futebol brasileiro, sabe exatamente o ÚNICO lugar que ainda seria recebido nos braços da galera.
A direção do Grêmio, que também não é boba, faz o que boa parte da torcida queria.
A mesma torcida que gritou “fica Luxemburgo”.
A convicção já foi pro espaço.
Bancar mais um treinador que não tenha o aval da torcida é um suicídio eleitoral.
E a eleição é ali em Setembro…

Nós, torcedores, somos passionais e queremos apenas que nosso time vença.
O resto que se exploda.
E essa paixão nos cega e nos faz “esquecer” o que nos desagrada.
Gremistas que crucificaram Felipão após os 7×1, passam a “esquecer” o que aconteceu naquele dia.
A partir de agora, o Felipão é apenas “aquele dos anos 90”.

Com sinceridade, se isso estivesse acontecendo comigo, eu agiria da mesma forma.
Quando existe uma relação de amor entre as partes (caso específico de Grêmio e Felipão), a gente sempre releva as coisas ruins e se abraça somente no que é bom.
Principalmente se um dia já fomos felizes.
Porque a gente quer que dê certo.
De novo.

O futebol é o esporte mais improvável que existe.
Por isso fica difícil qualquer previsão.
A última passagem de Felipão por um clube no Brasil, foi em 2012, no Palmeiras.
No mesmo ano, o clube foi Campeão da Copa do Brasil e rebaixado no Brasileirão.
Complicado né?

Como Colorado, óbvio que quero mais é que seja o Felipão dos 7×1.
Mas também não posso criticar o Gremista que se empolga com “a mágica volta dos anos 90”.
Torcedor é paixão.
E os verdadeiros apaixonados, sempre se permitem tentar de novo.

@leleolele

Não faltou fumaça

É o fim da “Era Enderson” no Grêmio. O técnico que não serviu pra treinar os juniores do co-irmão finalmente foi desligado do Tricolor. Tarde. Muito tarde. Mas se foi.
 
Confesso que não achei ruim a aposta da direção. Uma alternativa considerável para um clube que se via quebrado financeiramente e assistia a um treinador relativamente barato e jovem beliscar o G4 com o Goiás. Porém, desde o começo questionávamos sua liderança. Sua capacidade de comandar e motivar seus atletas. De conquistar até mesmo o respeito do grupo. Sua aparente apatia preocupava. Mas a chance lhe foi dada. Não tínhamos muitas alternativas. Achei válido.
 
Aí o tempo passou. E é só isso que separa apostas do sucesso ou do fracasso: o tempo. Ninguém é aposta pra sempre. Depois de certo tempo de trabalho sendo avaliado, algumas conclusões já começam a ganhar corpo. E, nesse período, Enderson se mostrou fraco. Taticamente, estrategicamente, psicologicamente, tudo. Não vi um mérito pra contar história. Volta e meia clamamos por demissões, expomos nossos motivos, porém reconhecemos méritos aqui ou acolá do alvo em questão. Nesse caso não foi possível ver algo de útil. Pelo menos eu não vi.
 
A permanência inerte e improdutiva de Enderson no Grêmio começou a corroer o time como um fogo que se alastra pela mata seca. Um incêndio que comprometia as estruturas do vestiário e fazia com que a equipe, em campo, aos poucos fosse desmoronando, definhando. Os dirigentes, como se fossem os bombeiros da história, eram os únicos capazes de conter o fogo: nada fizeram. Não sei se por erro de avaliação (talvez julgando ser uma faísca inofensiva) ou por estarem ocupados em outros incêndios (talvez no da OAS), o fato é que não interviram. Assistiram ao desmoronamento do Grêmio enquanto time. Assistiram a seus atletas construindo jogadas quase que somente pelo esforço, no talento individual, na vontade, no suor. Sem jogadas, sem organização, sem esquema, nada.
 
E não faltou aviso. A então “aposta” chamada Enderson Moreira já dava seus primeiros sinais de fumaça no Gauchão. Uma campanha “ok” que, porém, culminou com o desfecho trágico e vexatório da Final. Talvez pior que os seis gols tomados nos dois Clássicos tenha sido o discurso irritante e broxante inaugurado pelo treinador gremista naquela ocasião: “isso é normal”. Discurso que, por incrível que pareça, foi reutilizado inúmeras vezes depois disso. Enderson não tinha um assessor, empresário, dirigente do clube ou até mesmo uma TIA DE BOM SENSO que pudesse instruí-lo a não repetir aquela bobagem? Tomar seis do Inter jamais será normal para o Grêmio. Sumárias e decepcionantes eliminações para times tecnicamente PIORES jamais poderá ser considerado algo normal para um clube desse tamanho e com essa história. Enfim, ao término do Clássico já tínhamos indícios de que havia fumaça naquela casamata. Direção já tinha a primeira brecha para chegar chutando a porta do vestiário com o extintor de incêndio em punhos.
 
Mas nosso “técnico normal” seguiu no comando do time. E perdeu uma das Libertadores mais acessíveis dos últimos tempos. Derrota patética. Sem alma. Sem nada de produtivo em campo. Decepcionante. A essa altura já era possível enxergar, além da fumaça densa que fugia pelas frestas, algumas labaredas beliscando as janelas. Direção tricolor assistia calmamente. De repente pensando se tratar apenas de uma lareira acesa ou de um arroz queimado na penela. E vá fumaça! E nossos bombeiros de braços cruzados.
 
Enderson ficou, mais uma vez. E começou o Brasileirão. A campanha de arrancada teve seus altos e baixos. Nenhuma partida convincente. Vitórias no “bumba-meu-boi”, derrotas preocupantes. A fumaceira já encobria a cidade. E veio a Copa, momento perfeito pra apagar o incêndio em paz e retomar a vida com maior tranquilidade. Bombeiros tricolores seguiam imóveis. Copa acabou. Três jogos de Brasileirão, três resultados diferentes. Todos com uma semelhança: futebolzinho igual ou pior ao pré-Copa. Nenhuma evolução. Elenco reforçado, boas peças em campo. Futebol sofrível apresentado. A fumaça já impossibilitava a respiração de alguns torcedores. Alguém precisava fazer algo. Aí jogaram um barril de pólvora no fogaréu: derrota pro Coxa, do Z4 e do Roth, em casa. Mangueiras ativadas. O incêndio estava em fase avançada. Enderson caiu. Demorou, mas caiu.
 
Alguns dirão: “que absurdo derrubar o técnico três jogos depois da Copa. Tiveram 40 dias pra chamar alguém e iniciar o trabalho“. Verdade. A direção, desde o início, menosprezou a nocividade dessas chamas. Tentou administrar, levar até o fim do ano quem sabe. Tentou esperar uma chuva, crer em melhores dias, sonhar com ventos dissipando a fumaceira. Nada disso veio. Precisaram agir. Planejamento e avaliação de contexto horríveis. Mas o erro não foi demitir Enderson agora. O erro foi não tê-lo feito antes. Agora, ainda que tarde, a notícia foi ótima. Ou esse incêndio podia atingir níveis trágicos.
 
@lucasvon.

A saga do torcedor brasileiro

Fim de Copa. Lá vai o torcedor brasileiro reencontrar seu time do coração.

O jogo começa às 19h30min. O torcedor brasileiro trabalha até às 18h, do outro lado da cidade. Já levou o “manto sagrado” pro trabalho. Ligou para seu companheiro de jogos, um amigo de longa data, que respondeu: “ih, rapaiz. Hoje trabalho até às 19h, impossível chegar a tempo. Nem de helicóptero“. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo sem parceria.

O ônibus atrasa. O trânsito daquele horário é caótico. A bola vai rolar e o torcedor brasileiro está longe do estádio. Rádio? Esquece. Tem “A Voz do Brasil”. Chegando lá, filas pra entrar. A sua nova Arena moderna e Padrão FIFA não abre todos os portões – bem como bares, rampas, etc – em dias de jogos comuns. Os perrengues se assemelham – em alguns casos até superam – aos do seu antigo e ultrapassado estádio. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo pegando fila.

O primeiro tempo já está quase acabando quando, enfim, o torcedor brasileiro adentra sua segunda casa. Nervoso, pergunta a um senhor de bigode quanto tá o jogo: “não sei, acabei de chegar também“. A angústia do torcedor brasileiro aumenta. Por um lado ele adoraria saber que ainda tá zero a zero, garantindo que não perdeu lances importantes; por outro, adoraria que seu time já tivesse aberto uns dois gols de vantagem. Fica confuso. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo atrasado.

Mal se instalou em sua cadeira e acabou o primeiro tempo. Que correria pra chegar lá! Tudo que ele queria agora era uma cervejinha pra refrescar a mente. Mas não pode: é mais fácil prejudicar a maioria, composta por cidadãos de bem, a punir a minoria arruaceira exaltada pelo álcool. Cachorro-quente? Nem pensar! 10 reais naquele pedaço de pão insosso não cabe em seu orçamento. Já se esforçou financeiramente para estar ali. Vai ter que aguentar até chegar em casa. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo com fome e sede.

Enquanto isso, em outra grande cidade brasileira, outro torcedor começa a se preparar para reencontrar seu time. O duelo está marcado para às 22h. Ele sai do trabalho e vai pra casa. Come algo rapidamente, dá um beijo na patroa e se manda para o estádio. Chega pouco antes, toma cervejinha com amigos no entorno e entra. Aí o jogo acaba – pela meia-noite – e ele vai embora. Desce do trem, apanha um ônibus e, pronto, está em casa. 2h da matina. Ainda tem banho e segundo tempo da janta. E amanhã tem que estar de pé cedinho. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo não podendo dormir.

Ainda que os interesses televisivos ditem as regras de qualquer competição futebolística – incluindo a Copa do Mundo da FIFA -, no retorno do Brasileirão essas regras se mostram mais cruéis. Os patéticos horários das partidas contemplam a novela, a transmissão, a grade da emissora… Só não contemplam os interesses do torcedor que vai ao estádio. Contemplam interesses econômicos, não contemplam o bom senso. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou ao estádio, mesmo que o espetáculo não seja montado para ele.

Concordo que marcar jogo às 13h não é o suprassumo da razoabilidade. Sobretudo em dia da semana. Mas pelo menos, durante a Copa, as cidades-sede das partidas em questão costumavam fazer feriado. Nos dias de Brasileirão a vida segue. Não tem feriado. Não tem concessão do chefe. Não tem policiamento simpático. Não tem incentivo algum. Tudo joga contra. E a grande paixão do brasileiro é justamente seu clube. A Copa é festa, o torneio nacional é coisa séria. E autoridades – inclusive ligadas ao futebol – agem como se fosse o contrário: “a Copa é o importante e tua paixão que se dane. Te vira“. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Voltou aos estádios como se estivesse tudo bem.

No dia que acabarem com o torcedor de estádio, o futebol vai morrer. Ele faz parte do espetáculo. E aí, morre também na TV. Morre a fortuna ligada a ele, morre tudo. Ceifam a paixão em nome do dinheiro. Esquecem que é essa paixão que faz ele girar. Deviam fomentar cada vez mais o envolvimento dos torcedores apaixonados. Fazem exatamente o oposto. Mas o torcedor brasileiro é apaixonado. Só não sei até quando.

 

@lucasvon