Marcado: 105 anos

Nós, tu e os outros

Existem muitos Grêmios. O Grêmio que só nós, gremistas, conhecemos. O Grêmio que só tu conhece. O Grêmio que os outros enxergam de longe.

Para nós, o Dinho era muito melhor que o Falcão. Pra ti, bom mesmo era o Carlos Miguel, mas nunca esquecerá do dia em que encontrou o Cangaceiro dos Pampas no shopping e tirou várias fotos com ele. Pros outros, Dinho só sabia dar pau.

Pra nós, quando o time tá ganhando um bom carrinho vale mais que um belo drible. Pra ti, nada supera aquela lambreta do Fábio Baiano naquela Libertadores, bem na tua frente. Pros outros, carrinho é feio e a lambreta do Fábio Baia… Que lambreta?

Pra nós, um dos momentos mais lindos da nossa história foi quando o Grêmio PERDEU um título nacional em pleno Olímpico e o estádio inteiro cantou o Hino do clube ao término da partida. Pra ti, mais incrível ainda foi vestir o manto no dia seguinte, achando que tava ousando, e perceber que muita gente nas ruas teve a mesma ideia. Pros outros, foi apenas um dia triste que os gremistas fazem questão de esquecer.

Para nós, aquela Libertadores 2007 foi incrível. Momentos eternizados em nossas memórias. Torcida enlouquecida e em sinergia com o time. Pra ti, muitas histórias, tragos, matação de aula, churrascos e lágrimas naquela jornada. Para os outros, um vice-campeonato não vale nada.

Pra nós – que somos campeões mundiais – vencer um jogo fora de casa com 4 jogadores expulsos e 2 pênaltis contra foi a maior epopeia que o Planeta Terra já viu. Pra ti, custou uma cadeira nova e um mês de gesso na mão: depois do gol do Anderson, o soco no primeiro móvel que viu pela frente foi inevitável. Pros outros, era apenas uma Série B.

Pra nós, o Olímpico representa momentos incríveis de nossas vidas. Pra ti, pai recente que só agora começou a levar o filhote aos jogos, a Arena já começa a fazer mais sentido. Pros outros, ambos são apenas um amontoado de concreto.

Pra nós, a “imortalidade” lapidada por Lupicínio Rodrigues no Hino mais bonito do Brasil não significa ser invencível: significa não se entregar. Pra ti, essa imortalidade faz ainda mais sentido quando o Tricolor estufa as redes e te faz lembrar daquele ente querido, gremistaço, que já não está mais entre nós e que, lá do céu, canta conosco. Para os outros, é só um Hino. Só uma palavra.

Para nós, os últimos anos sem títulos foram repletos de emoções indescritíveis. Semanas Gre-nal. Semanas de Libertadores. Ansiedades, alegrias, golaços, esperanças renovadas. Fora das quatro linhas, amizades incríveis construídas graças ao Grêmio. Pra ti, viagens emocionantes seguindo o Tricolor. Inesquecíveis, ganhando ou perdendo. Para os outros, os últimos anos do clube não nos deram motivos para um pingo sequer de alegria.

Os outros que me perdoem, mas quem sabe de Grêmio somos nós, os gremistas. Não só da gloriosa história do clube, mas sobretudo do que vivemos e sentimos com o Grêmio e graças ao Grêmio. Só nós gremistas sabemos o que algumas coisas que giram em torno do Tricolor significam. Só tu, gremista, sabe como o Tricolor interfere e até mesmo molda tua vida.

Essa data não é só do Grêmio. É nossa. Dos 111 anos do clube, dos meus 29 de gremista, dos teu 63, dos 12 dela, dos 2 dele. Pois o Grêmio não é um, são vários. E é só nosso. Meu e teu. E de mais 8 milhões de pessoas que vivem de loucuras.

Parabéns a todos nós. Parabéns ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

@lucasvon.

Confissões de um irmão

Carta aberta de um gremista ao aniversariante Sport Club Internacional.

 

A gente vive se engalfinhando. Vive debochando, criticando, tentando descobrir pontos fracos um do outro para gritá-los aos quatro ventos. Agimos como se o ódio imperasse em nossa relação, mas confesso: no fundo é amor.

Finjo que te desdenho, mas confesso: vivo falando ou pensando em ti. Faço até campanha para que minha torcida cante menos músicas que te mencionem e foquem mais naquelas que falam só de nós mesmos. Mas, no fundo, quase sempre que meu time voa em campo penso matreiramente em ti. Um pensamento sarcástico que diz mais ou menos assim: “CHUPA!” Tu faz parte até dos meus sucessos.

Confesso que nos teus fracassos retumbantes eu perco a linha. Grito, danço sozinho em casa, xingo o vizinho pela janela. E vamos parar por aqui pra eu não ser preso. Tu me incomoda, meu irmão. Nossa competitividade pauta minha vida. Não suporto te ver gigante, imponente, vitorioso. Isso me machuca de uma forma que eu nem gostaria de confessar. Mas o dia é teu, aqui estou, o fazendo.

“Os opostos se atraem”. E é por isso que a gente se hostiliza tanto: somos iguaizinhos. Sei que tudo que estou confessando tem uma recíproca verdadeira. Tuas reações e pensamentos em relação a mim são os mesmos. Só muda o endereço. E as cores. E o número de torcedores e… Ops. Força do hábito.

E, olha que ironia: eu que sou o Imortal, confesso que quero te ver na mesma condição. Quero um Inter eterno. Que esse 105° aniversário seja apenas o começo. Apesar das nossas alfinetadas, tenho certeza que ninguém mais do que eu sofreria com a tua ausência. Não me invente de fechar as portas. Seja imortal. O Grêmio não seria o mesmo sem ti. Não teríamos tanto medo de perder sem tua corneta. Não teríamos tanta ânsia de vencer sem a meta de te igualar ou superar em algum quesito. Fique aí. Não me incomode muito, mas fique aí.

Desejo tudo de pior pra ti, meu irmão. Mas ainda assim, és meu irmão. Amo tua companhia. Amo aquele Inter que perde pro Mazembe. Amo nossas “Semanas Gre-Nal”. Amo o próprio Gre-Nal (só alguns, pra dizer a verdade). Amo muita coisa diretamente ligada a ti. Amo tua existência; choraria sem ela. O que sobra é a rivalidade: nada parecido com o ódio.

Por isso, hoje deixei esse papo de “coirmão” de lado. Nossa relação é de irmãos mesmo. Irmãos pequenos, pois seremos eternamente crianças. O futebol é muito alucinante e mágico para um adulto entender e gostar. Todos somos crianças nessa bagunça. Seremos para sempre aqueles irmãozinhos que no fundo querem o bem um do outro, mas que na prática lutam incansavelmente para superar aquele chato do quarto ao lado.

Parabéns, Inter. Siga tua senda de fracassos, meu irmão. Mas siga aí, firme, forte e – só entre nós – gigante.

 

Saudações azuis, pretas e brancas,

Lucas von.