Marcado: Koff

Sorria, você está todo cagado

A tarde dessa terça-feira começou com muitos sorrisos no Rio Grande do Sul. De todas as partes: além de gremistas felizes com o anúncio do seu novo/velho treinador, colorados e demais “anti-Felipão” também se mostraram satisfeitos com a notícia. Sorriram, debocharam, até gargalharam. Scolari virou motivo de piada para alguns pós Copa do Mundo. A contratação foi comemorada por parte dos vermelhos.

Tentei nortear os críticos. Falei que a Seleção se perdeu em campo durante 4 minutos. A Copa se foi ali, na cabeça, na concentração. Bem ou mal, ficaram entre os 4 melhores, de 32. Na maior competição do mundo! E com um time médio. Não adiantou: os sorrisos permaneceram nas faces rubras. “Felipão é ultrapassado. O futebol mudou muito. É ex-treinador”.

Tentei lembrá-los que até ontem o cenário era: Scolari vencia a Copa das Confederações (goleando a Espanha atual campeã do mundo), organizava uma bagunçada Seleção Brasileira e era visto por todos como um dos principais treinadores do mundo. Em apenas 7 jogos – ou 4 minutos – todos esses conceitos se inverteram? Aí eles lembraram que Felipão rebaixou o Palmeiras em 2012 ( ainda que tivesse pedido demissão meses antes do descenso). Lembrei que naquele mesmo ano ele deu uma Copa do Brasil a esse fraco time do Palmeiras. “Sorte”, me responderam. Com o sorriso firme no rosto.

Insisti: há cerca de 2 anos o Inter tentou trazê-lo e a torcida colorada ficou EM CHAMAS. A segunda opção era o venerado Abel Braga (que rebaixou o Fluminense e perdeu Finais de Copa do Brasil pra Santo André e Paulista). Naquela época Scolari era gênio e colorados mobilizavam campanhas para trazê-lo. Hoje – 600 e poucos dias depois – é obsoleto. Futebol é tão dinâmico assim? “Torcedor é passional. Se agarra no pensamento mágico. Acha que, se deu certo no passado, dará certo para sempre. A Copa desmistificou isso”, me responderam. Parei de argumentar.

Ia dizer que pensamento mágico, pra mim, é Silas e Enderson. Que trazer um multicampeão é pensamento lógico, baseado em referências do passado. Pode não ganhar nada, mas a tentativa é lógica. Preferi guardar essa ponderação pra mim. Preferi deixá-los sorrindo.

O futebol, sem dúvidas, mudou muito de poucos anos pra cá. Se Felipão acompanhou ou não essas mudanças, não sei. Só sei que tem todo o resto. Por mais que ele esteja por fora das novas tendências táticas, do 4-1-2-1-2, do losango no meio, da movimentação alemã, do toque de bola colombiano, do blá blá blá do raio que o parta, tenho certeza que o “homi” ainda sabe alguma coisa do riscado. Tenho certeza que ainda põe quase todos – se não todos – técnicos brasileiros no bolso. Tomou pau na Copa, mas nessa várzea brasileira o panorama é outro.

Mesmo com 39 anos de estudos em Harvard, estágios em clubes alemães e intensivo no Barcelona, o Enderson não “limparia a chuteira” do Felipão. Não adianta só estudar, tem que ter o dom. Futebol ainda é feito por seres humanos. Feito de relacionamentos, imposição, olho no olho. Com emoções, confiança, motivações. Com dedo na cara, suor, malandragem, talento e loucura. Disso o Felipão manja. É nesse pensamento mágico que acredito. E foi esse Felipão que me ensinou a acreditar.

Os debochados seguiram sorrindo. Foram pra casa lépidos e fagueiros. Ao baterem a porta, murcharam. Fecharam o semblante. Suas esposas ou maridos devem ter perguntado: “o que houve? Que cara é essa?” “- Nada não”, deve ter sido a resposta. Mas no fundo eles sabem o que houve. Sabem que dois gigantes adormecidos se reencontraram. Dois gigantes que, juntos, ficam ainda mais fortes. Dois gigantes que vêm sendo sumariamente criticados e ridicularizados. Dois multicampeões loucos para calarem bocas.

No fundo eles sabem que o resultado dessa contratação lógica pode ser mágico. No fundo, seus corações temem pela volta das loucuras azuis, dos delírios tricolores. No fundo, lá no fundinho, eles olham praquele bigode e tremem na base. Lembram que perdiam Gauchão pros nossos reservas. No fundo, esses sorrisos não são totalmente falsos: há um certo nervosismo nessas expressões. Há um esforço nítido para transparecer leveza.

E amanhã, ao acordarem – com olheiras cavernosas no rosto, vestirão suas roupas e seus sorrisos antes de sair de casa. Desfilarão pelas ruas confiantes, triunfantes, sorridentes. Aparentando tranquilidade e desdém. E sorrindo. Vamos ver até quando.

@lucasvon.

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O rebanho tá sem comando

O time do Grêmio começa e termina mal em sua escalação. Sempre fui defensor de ambos: Grohe e Barcos. Mas não dá mais. Ok, uns vão criticar o Pará, outros sei lá quem, outros – inclusive eu – vão dizer que o Zé Roberto acabou – só o Enderson não vê que jogamos com um a menos – e assim por diante. Tudo bem, tudo isso faz sentido. Mas não vejo esses nomes COMPROMETENDO tanto. Todo time campeão tem seus “entulhos”. Porém, GOLEIRO e CENTROAVANTE são posições vitais. Suas falhas ou ineficiências invariavelmente decidem jogos. E campeonatos.
 
Nosso goleiro vive às custas das bolas em que chega atrasado, dando a impressão de milagre. Em outras, um pouquinho mais complicadas, falta o milagre verdadeiro. Transita recorrentemente entre as linhas tênues que separam o frango e a falha do “podia ter pego” e o “não teve culpa”. Aquele debate que, quando muito recorrente, é sintomático. Marcelo tentou adivinhar canto lá na Argentina. Com bola rolando. Um chute fraco no meio do gol e ele nem saiu na foto. Concordei em dar uma chance ao rapaz, acho que é bom goleiro sim, parece ser uma ótima pessoa também, mas ok, foi testado, já entendemos, agora pode ir pro Goiás/Figueirense/Atlético-PR para desfrutar a titularidade tão almejada. Aqui seu lugar é na reserva. Um BAITA reserva, é verdade. Mas o Grêmio precisa de um algo a mais para ostentar a camisa 1.
 
Barcos parece ser boa pessoa também. Líder, blá blá blá. Sem vibração nenhuma pra um capitão. Me dá sono. Mal sabe falar com o árbitro. Parece que  joga de calça jeans e mochila, mas ok, não é esse o ponto. Sua personalidade amena não seria problema se EMPILHASSE gols: coisa que tinha tudo pra acontecer. Só que não acontece. Na “hora H” ele não chega na bola. Ou erra chute estúpido. Ou não tá na área. Ou tá impedido. Ou chuta no goleiro. Ou isso, ou aquilo. E o pior é que tem talento. Entretanto, não consigo imaginá-lo (e digo isso há tempos) fazendo um gol decisivo, numa fumaceira. Gol de classificação ou título. O Barcos do Grêmio, pelo menos, nunca me deu essa esperança. Seu único gol importante foi aquele abrindo os trabalhos no Gre-nal. Gol bonito, que SERIA importante se não tivéssemos tomado mais 6 na sequência. Time com centroavante que não faz gols não costuma ir longe. Simples.
 
Fora isso, o time todo parece perdido. Ninguém reclama de nada. No 1º tempo, aquela bola do Barcos na linha de fundo NÃO SAIU e ninguém reclamou. Aí o juíz dá só UM MINUTO de acréscimo e o silêncio continua. São apenas dois exemplos, entre tantos outros. O time é de cordeirinhos, com raras exceções (Dudu se salva, certamente; Edinho também, talvez – e não passa muito disso). Ovelha não é pra mato. Luan, por exemplo, parece uma menina tímida. Tem um talento ímpar e um medo igualmente gigantesco. Não vai pra cima, não chama o jogo, se esconde na decisão. “Ah, mas é muito novo”. Sim, Neymar também era quando deu uma Libertadores para o Santos. Obviamente não tô comparando o futebol de ambos, apenas a postura. O Grêmio inteiro é meio Luan.
 
Na casamata, o retrato da bunda-molice. Enderson, o gordinho simpático, assiste a tudo isso com aquela cara de… Deixa pra lá. Aí o Grêmio é eliminado e ele vai aos microfones dizer que o time foi GUERREIRO. Hahahaha! Vamos rir, pessoal. Hahahahahaha! Guerreiros!!! Vamos rir pra não chorar. Perderam pra um time 30x pior, não reclamaram de nada, não foram capazes sequer de combinar um tiro-livre dentro da área, porém, GUERREIROS. Se o Enderson realmente acha isso guerreiro, o futuro com ele me assusta.
 
Mas, calma. Nem tudo é tragédia. Na Presidência temos um mito. O “Papa Copas”. Não à toa votei nele. O cara que… O cara que ao final desse jogo trágico diz que o saldo do ano é positivo. MEU DEUS. Koff não pode ter ido a Tóquio duas vezes com esse pensamento. Ou foi na sorte, ou o velho Koff de outros tempos também acabou. Lá se foram suas energias. Uma entrevista patética atrás da outra. Salve-se quem puder.
 
O torcedor passional aqui já dizia desde o começo do ano: “não foquem no Gauchão, desprezem. Usem titulares para testes e ritmo, eventualmente”. Não foi o que fizeram. Focaram alucinadamente, como se esse título fosse resolver nossos problemas e quebrar nosso jejum. Nenhum sentido. Nenhum. Parabéns, jogamos sem Rhodolfo, Wendell e Luan no jogo de ida e sem o zagueiro na Arena. Tudo isso pra chegar numa Final de GAUCHÃO e tomar 6 no Gre-nal. Grêmio chegou ao Clássico com 22 jogos na temporada, Inter com 9. Desgaste físico e psicológico pra quê? Pra ganhar o GAUCHÃO. O passional aqui já sabia que era um erro. O multicampeão Fábio André Koff só descobriu agora.
 
Confesso que não sei se agora adianta demitir meio mundo. Que o Enderson fique se não vier alguém melhor. Mas, POR FAVOR, PROCUREM BEM. Se conseguirem alguém melhor, tragam logo! Essa apatia irritante tem que ter fim. Por outro lado, não duvido que Enderson faça um bom trabalho no Brasileirão. O problema dele é Copa (adeus, Copa do Brasil). É quando o caldo engrossa que ele sucumbe. Aliás, é o problema do time todo. E, surpreendentemente, vem sendo até pra essa direção calejada. Falta alguém sanguíneo nesse processo. Falta um espírito coletivo no clube, uma sinergia; onde faxineiros, jogadores, Presidente, fisioterapeutas, roupeiro, médicos e gandulas estejam imbuídos na mesma causa. Falta muita coisa.
 
Informação: torcedor só é passional na vitória. Na derrota somos mais racionais do que pensam. Os times do Grêmio de 1983 e 1995 tinham muitos defeitos, mas a gente os esquece ou ignora. Os trunfos daquelas equipes ceifam nossa racionalidade fria e nosso poder de crítica. O fracasso é o combustível de ambos.
 
Se o jogo de quarta-feira terminasse 2×0 pra nós, jogadores seriam festejados. Mas não se enganem: aquilo seria apenas um PERDÃO TEMPORÁRIO e PASSIONAL. Esse mesmo torcedor continuaria sabendo das limitações do time. Seguiria com o fiasco das Finais do Gauchão na memória. Teria muitos “poréns” na manga, mas, na vitória, a passionalidade toma conta. Perdoamos. Vamos prolongando esse perdão até uma eventual Final. Em caso de título, todos estão definitivamente absolvidos de toda e qualquer culpa, pra sempre (ou até a próxima temporada). Na euforia da vitória não há espaço pra racionalidade e análises. É a passionalidade quem manda.
 
“Por um gol a mais ou a menos o torcedor faz crise. É passional”. Não. Insisto, nossa passionalidade só impera na vitória. Relevamos tudo, agimos emocionalmente. Já nas derrotas lembramos de tudo que nos incomoda ou incomodou: a falha de um, o chute bisonho de outro, a falta de entrega de um terceiro, o Gre-nal, o técnico achando tudo normal. E aí ficamos irados. Não queremos mais erros. Não queremos mais ser um time normal. Há 13 anos queremos ser O MELHOR em alguma competição importante. Técnico que acha tudo normal não entende o tamanho do Grêmio. É um técnico apenas normal, médio, medíocre.
 
Eu cansei. Honestamente, não almejo títulos. Não mais. Larguei de mão. Pra esse ano, só espero dignidade. Que percam tudo, mas que percam me orgulhando. Como aquele time de 2007. É só o que peço. Que façam o certo. Que se irritem em campo. Que o Barcos suje o calção. Que o clube respire as competições que disputar e seja indignado. Aí vou aceitar bola na trave, sorte, azar, misticismo, Papa. Caso contrário, a culpa é nossa. A culpa é deles: jogadores, comissão técnica e direção. E isso não podemos aceitar calados.
 
Foi bom termos caído fora da Libertadores. Esse rebanho de cordeirinhos não ia longe. Perderia pro Cruzeiro ou depois. Ia ser quase, de novo. Na melhor das hipóteses, ia ser por pouco. Ia ser nos pênaltis. Não sei como ia ser. Só sei que de alguma forma ia nos irritar. E não ia virar caneco. Não com esse pessoal, não com esse espírito. Pelo menos essa competição não nos incomoda mais. Seria uma incomodação pra NADA. Agora podemos focar no Brasileirão. Pra, quem sabe, pegar um G4 e voltar a sonhar com o ano que vem. Mais uma vez.
 
 
Saudações azuis, pretas e brancas.
Lucas von.

O Injustiçado

Na noite de ontem todos nós gremistas acompanhamos o sorteio dos grupos da Libertadores 2014. Há quem tenha feito churrasco pra servir de guarnição desse prato que estamos muito acostumados a comer, a América. São 15 participações e 4 finais. Poderemos ficar 70 anos sem participar da Libertadores que a turma da FIFA não conseguirá chegar perto.

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