Marcado: suástica

A Suástica e o Macaco – Em 5 ATOS

Já tentei abordar o tema sugerindo que a torcida gremista deixasse esses termos macaquísticos de lado e fui apedrejado por alguns. Chegamos a tirar o vídeo do ar (http://globoesporte.globo.com/rs/torcedor-gremio/platb/2014/03/10/pelo-fim-da-macacada/).

Curiosamente, agora me deparo com alguns desses apedrejadores criticando os cânticos da Geral no último jogo. Eu considerei coerente. Se eles não viam problema em seguir utilizando tais termos, por que num jogo no qual as atenções do país estavam mais voltadas para a Arena teria? Ou há problema, ou não há. A lupa da opinião pública sobre aquele jogo não é capaz de criar nada, só evidencia com mais clareza o que, com lupa ou sem, já existe.

Ah, mas podiam preservar o clube pro julgamento de quarta-feira”. Sim. Nosso vídeo sugeria que preservássemos para sempre. Ou daremos explicações e criaremos mal-entendidos ad eternum.

Num primeiro momento preferi não voltar ao assunto, mesmo com tudo que aconteceu recentemente. A experiência não foi das melhores. Porém, não resisti. Só que, dessa vez, não vai ter vídeo, nem texto com pedido ou sugestão pra ninguém. Apenas criei um cenário. Joguei dados reais em meio a fictícios. Inventei uma pequena história. E, em 5 atos, acho que resumi bem o que penso sobre parte dessa polêmica. As conclusões, cada um que tire as suas.

 

ATO 1 – O macaco permitido

Há quem diga que a origem do termo “macaco”, utilizado pela torcida do Grêmio para se referir aos rivais colorados, seja racista. Teria surgido pelo fato de o Inter ter aceito negros antes do Grêmio (informação que também gera controvérsias). Porém, fiquemos com as explicações mais brandas. Sejamos otimistas e ignoremos essa (grande) possibilidade. Aceitemos que nós gremistas só chamamos os colorados de macacos porque eles historicamente nos imitam, ou porque subiam em árvores para ver os jogos durante as obras dos Eucaliptos. Aceitemos até que o termo só é utilizado porque o próprio Inter adotou um macaquinho como mascote, ainda que o fato seja extremamente recente e os cantos bem antigos. Escolha a alternativa que melhor conforte sua alma e sigamos a leitura dessa trama.

HOJE, a imensa maioria dos gremistas não utiliza o termo com alguma intenção racista (quando proferido ao rival). Gremistas negros cantam essas músicas e colorados branquinhos como a neve são considerados macacos pela torcida tricolor. Se aceitarmos alguma daquelas explicações de origem não-racista do termo, a história fica perfeita e cristalina: a intenção hoje não é pejorativa, tampouco foi na origem. “Nosso macaco está 100% limpo. Por que diabos querem que a gente pare?

ATO 2 – O Shorinji Kempo

A suástica é extremamente antiga. Segundo a Wikipédia, “é um símbolo místico encontrado em muitas culturas em tempos diferentes, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus. Alguns autores acreditam que a suástica tem um valor especial por ser encontrada em muitas culturas sem contatos umas com as outras“.

É utilizada, inclusive, no mundo das artes marciais. Se fizermos uma busca, por exemplo, por Shorinji Kempo no “google imagens”, encontraremos diversas fotos de suásticas em quimonos e afins. E, ainda que o símbolo tenha ganho maior notoriedade global com o nazismo, o Kempo é apenas uma arte marcial japonesa que possui 0% de nazismo em sua essência.

ATO 3 – O fictício duelo Gre-nal

Imaginemos que o Sorinji Kempo não seja oriundo do Japão. Vamos criar uma historinha: o Kempo surgiu no Brasil, na época dos índios. É mais tradicional que a Capoeira nas terras canarinho.

Seguindo nessa trama imaginária, vamos supor que lá por 1903 dois caras decidiram criar um clube de futebol. Reuniram-se em um boteco de Porto Alegre e traçaram as primeiras linhas desse que viria a ser o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Lá pelas tantas surgiu uma questão: quem será o Presidente do clube justamente no importantíssimo período da fundação do mesmo? Os dois sujeitos queriam essa honra para si. Discutiram. Não chegaram a um acordo. Aos berros e exaltados, foram expulsos do boteco. Seguiram o acalorado debate na rua.

Eis que, em uma praça da cidade, com os nervos à flor da pele, os dois cidadãos chegam às vias de fato. Começam um duelo cuja consequência é bem clara: o vencedor assume a Presidência do clube que está nascendo. Como todo bom brasileiro, ambos são praticantes do Kempo, e é com as técnicas dessa arte marcial que o embate se desenrola. A multidão se aglomera para ver o maior duelo da cidade.

Temos um vencedor. Ele humilha seu adversário, que sai machucado e mancando. Que tunda, amigos. Desmoralização em praça pública. O vencedor cria o Grêmio. O derrotado sequer participa do processo. Os dois cortam relações. Mas o sonho do perdedor não morre ali: seis anos depois resolve criar seu próprio clube. Nascia então o Sport Club Internacional.

Anos depois os dois clubes cresceram, viraram potências do Estado e país, alcançaram as massas e contabilizaram um sem número de torcedores. Entre as provocações naturais de um para o outro, a torcida gremista ostentava suásticas em seus jogos. Ostentava, com orgulho, o símbolo da primeira vitória histórica do clube: a tunda que seu fundador deu no fundador do co-irmão em uma luta de Sorinji Kempo. Gremistas deram aos colorados o apelido de “mancos”, referindo-se ao estado crítico em que seu fundador saiu do embate. A corneta rolava solta. Suásticas pipocavam na torcida do Grêmio em todos os Gre-nais, a fim de provocar os rivais.

ATO 4 – O Nazismo e a menina

Agora vamos colocar pitadas de verdade nessa história: de 1933 a 1945 o Nazismo de Hitler governou a Alemanha. E fez tudo o que a gente sabe que fez. Inclusive, se apropriou da suástica.

Sigamos com a ficção: na década de 50, portanto, começou a pegar mal as suásticas ostentadas na torcida do Grêmio. Algumas pessoas já faziam inevitáveis ligações negativas ao outrora inofensivo símbolo. Mas gremistas estavam de consciência limpa e seguiam utilizando.

O mundo foi mudando. Ainda que as manifestações não tivessem intenções – e origem – nazistas, alguns gremistas começaram a se constranger de usar a suástica. Porém, a grande maioria ainda defendia a “inocência histórica do pobre símbolo”. Até que, em 2014, num amistoso do Grêmio contra a Seleção de Israel, uma menina é flagrada pela TV xingando o goleiro israelense de “judeu porco imundo”. Um ato isolado. Gremistas reprovaram a atitude da menina. Mídia mundial deu espaço para o episódio. Imagem do Grêmio foi incinerada.

Alguns jornalistas irresponsáveis começaram a generalizar. Talvez mal informados sobre a história da suástica tricolor, taxaram a torcida do Grêmio inteira de nazista. Destilaram ódio e vomitaram merda em seus teclados mundo afora. Tudo por um fato isolado que, infelizmente, ocorre em vários lugares do mundo.

Torcida do Grêmio ficou machucada. Abatida. Triste com todo esse bafafá. E aí, no jogo seguinte do clube, um grupo de torcedores – colocados atrás do mesmo gol em que a menina proferiu os insultos nazistas – ergue uma suástica gigantesca sobre a arquibancada e espalha bandeirinhas de suásticas por todo o setor. Tudo isso sob o olhar atento do mundo inteiro. Tudo pra tentar provar que a “nossa suástica” não tem problema algum.

ATO 5 – Ficção vs. Realidade

Acho o exemplo que inventei acima mais COMPLEXO que a realidade na qual estamos inseridos. Ainda que a suástica seja facilmente remetida ao nazismo, tinha uma história por trás. É um símbolo antigo e repleto de outros significados. Sem falar no “empolgante Duelo Gre-nal de Kempo”. Algo que jamais seria apagado da história. Um acontecimento eternamente celebrado pela nação tricolor. Mas mesmo com todos esses relevantes argumentos, acho que os gremistas da história imaginária podiam parar de usar o símbolo. Existem outros. O do próprio clube. Se vai machucar alguém (e certamente iria, até mesmo judeus gremistas), já não faz mais sentido seguir usando. Inclusive PARA EVITAR MAL ENTENDIDOS que sujem a imagem do clube. Se sumissem essas suásticas da Arena, talvez um próximo lamentável episódio semelhante ao da menina seria visto mais como “caso isolado” e menos como “da torcida do Grêmio”.

Se a torcida der menos motivos para alimentar interpretações erradas, talvez os jornalistas possam errar menos contra nós. Possam generalizar menos. Até os jornalistas irresponsáveis – que não medem as consequências de suas palavras e não se dão conta de que podem até mesmo incentivar agressões físicas contra gremistas Brasil afora – quem sabe podem preservar mais o clube. Mas isso só se o próprio torcedor der menos margem a esses equívocos.

E nesse ponto minha ficção se assemelha muito a realidade atual. Com a diferença de que o MACACO não significa nada pra nós. Nenhuma história gloriosa ou algo que o valha. E, ao contrário da suástica de tantos significados, a palavra “macaco” direcionada a uma pessoa tem o mesmo triste sentido no mundo inteiro. É algo muito mais recente e vazio. Algo que, sinceramente, só traz prejuízos ao clube.

Seja lá por qual motivo ou contexto histórico, o fato é que a torcida do Grêmio passou a chamar os colorados de macacos para irritá-los. Acho extremamente válido que rivais se provoquem e irritem uns aos outros. Mas o mundo mudou. A sociedade mudou. Nem tudo que se fazia em 1950 é possível que seja feito hoje. Que sigamos irritando os colorados cantando mais alto que eles em pleno Beira-Rio. Dizendo que eles torceram pro Grêmio em 2009. Debochando do D’Alessandro ou fazendo SEI LÁ EU O QUÊ. Mas hoje, 2014, chamá-los de macaco só irrita alguns negros, independente do time para o qual torçam. Só irrita OS PRÓPRIOS GREMISTAS (vide Grêmio 1 x 0 Bahia). Só prejudica nossa imagem.

Aquele colorado fanático e radical que deseja o PIOR para o Grêmio deve estar ADORANDO tudo que está acontecendo. E deve estar torcendo para que sigamos insistindo nessa “provocação”.

 

Saudações azuis, pretas e brancas,

@lucasvon.